Quando o assunto é segurança, as normas devem ser seguidas. O mesmo se aplica a produção de vestimentas de segurança. Pesquisa realizada na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP testou a eficácia de trajes antichamas e comprovou que a linha de costura inapropriada resulta na propagação de chama, tornando a peça inadequada para a segurança do usuário. A pesquisa foi conduzida pela engenheira têxtil Sandra Monteiro de Albuquerque e teve como meta verificar a influência da linha de costura na segurança da vestimenta de proteção ao fogo.
Vestimentas de segurança possuem necessidades diferentes e específicas, como tecido e linha de costura apropriados, manejo de materiais, maneira de realizar a costura e modelagem. O conjunto dos fatores é responsável pela segurança. Existem diversos tipos de roupas com esta função. A pesquisa abordou os trajes usados para proteção contra calor e fogo, que são adequados para reduzir os efeitos de forno, respingo de metal, altas temperaturas e o fogo em si. Para a produção desse tipo de indumentária existem tecido e linha de costura fabricados com propriedades especiais para essa finalidade e o seu conjunto garante a segurança do trabalhador que usa essas peças.
Ao analisar roupas já prontas para a comercialização, a pesquisadora reparou que alguns dos produtos não possuíam as costuras feitas com a linha recomendada pelas normas técnicas que ela havia estudado. Pensando no comprometimento da segurança do trabalhador que usaria aqueles trajes, Sandra iniciou sua pesquisa. A partir das recomendações das normas técnicas, ela usou os tecidos aprovados, costurando alguns retalhos com diferentes tipos de linha. Após esta etapa, as peças foram submetidas a testes de inflamabilidade visando avaliar a eficácia e adequação das diferentes linhas. Os testes comprovaram que mesmo usando tecido apropriado para o fim se a linha não é adequada, a costura propaga a chama e a vestimenta não é segura. Segundo a pesquisadora, “seguir as normas é essencial para proteger o trabalhador”.
Controle da produção
Atualmente existe um procedimento que exige que os produtores desse tipo de traje mandem uma amostra das peças produzidas para laboratórios responsáveis por testes. Caso a amostra esteja de acordo com as normas e passe nos testes aplicados, o produtor recebe uma licença temporária para a produção, que deve ser renovada de tempos em tempos. No entanto, não existe nenhuma garantia que toda a produção seja igual à amostra. Os testes são feitos fora do Brasil e isso torna a fiscalização muito difícil.
A terceirização da costura é uma prática comum no Brasil. Como a costura é feita por outra oficina é necessário que o produtor tenha confiança e uma garantia que o terceirizado vá seguir os padrões estipulados pelo. O produtor que não estabelece os padrões de segurança necessários, além de colocar vidas dos trabalhadores em perigo, corre riscos de sofrer processos e perder sua licença. É muito importante ter o controle total de sua produção. Segundo a pesquisadora, “a preocupação com o tecido é evidente, mas a costura é deixada de lado”. Como a linha apropriada representa um investimento maior que linhas comuns, ela acaba sendo menosprezada.
A dissertação de mestrado Estudo comparativo do comportamento da costura em tecido que retarda a chama submetida ao calor e à chama, orientada por Regina Aparecida Sanches, traz informações a respeito de algo que recebe pouca atenção e busca a conscientização do perigo que o manejo inadequado de trajes de segurança representa ao trabalhador. É necessário que as oficinas e produtores levem a sério a costura desses trajes porque a linha inadequada pode expor a vida de quem depende da proteção oferecida por essa vestimenta.