ISSN 2359-5191

16/05/2005 - Ano: 38 - Edição Nº: 07 - Sociedade - Universidade de São Paulo
Críticas evidenciam problemas de jornais e jornalistas

São Paulo (AUN - USP) - A comissão organizadora escolheu para o primeiro dia do grupo de discussão sobre a democratização da comunicação na imprensa, na tarde de quinta-feira, trabalhos que apresentassem críticas à situação atual da imprensa na América Latina.

A má divulgação de ciência e tecnologia analisada pelo viés lingüístico foi o assunto do primeiro trabalho, de Francisco Rolfsen Breda, da PUC Campinas, “ex-setorista da Unicamp”. Segundo ele, as pessoas não se dão conta do quanto dependem de ciência e tecnologia. Contudo, os termos pivôs – o assunto – passa, no exercício jornalístico, por reformulações – metáforas, analogias – que visam a abrandar o rigor do discurso científico, mas que, quase sempre, adulteram os conceitos estudados. Isso impossibilita uma plena argumentação, desqualificando a comunicação científica. Um bom exemplo disso é o maniqueísmo do tratamento dos alimentos transgênicos, a “panacéia de todos problemas de alimentação” ou um “monstro destruidor de biodiversidade, alimento Frankenstein”, como a imprensa os retrata. Ora, nem os cientistas, diz Francisco, tem opiniões tão definidas, e a imprensa não deve agir assim.

Bruno Augusto Amador Barreto, da Faculdade Projeção, fez uma análise das editorias internacionais de dez jornais de países do Mercosul e das principais agências de notícias do mundo, durante uma semana. Seu foco era a cobertura da América Latina dada por esses veículos. Quase toda a produção mundial das agências de notícias é feita pelas quatro maiores delas. Ele percebeu que a cobertura da América Latina feita na própria América Latina, é quase nula, e quando ocorre, os veículos dão preferência a fontes longínquas, européias ou americanas. Os editores dessas páginas disseram que a América Latina não entra na pauta porque o público não tem interesse nela; o público, contudo, pesquisou Bruno, não corrobora esse argumento – pelo contrário, de fato interessam-se por América Latina.

Com uma formação conjunta em jornalismo e direito, Marília Denardin Budó, da Universidade Federal de Santa Maria, apresentou um trabalho que gerou bastante discussão. Para ela, os direitos previstos na Constituição, especialmente quanto ao protocolo de investigação e julgamento de crimes, são pouco respeitados na cobertura da imprensa e, por isso, discordam dos preceitos de democracia que a Constituição prega, agindo de forma contrária ao pressuposto de que a imprensa deve ratificar a democracia. Ela usou como exemplo o caso de Adriano Silva: depois de preso por um assassinato, confessou outros mostrou à polícia outros onde estavam os corpos. O inquérito policial não correu em sigilo, como prevê a Lei – na Europa, por outro lado, as identidades dos suspeitos são sempre preservadas, até que se haja condenação. Por outro lado, não é assegurado à população o direito a informação sobre, como no caso, a confissão de um crime?

A expositora seguinte, Michele Roxo de Oliveira, da Unesp Bauru, fez um estudo sobre as condições de trabalho nas redações e da influência delas na produção da imprensa, uma reflexão sobre as situações objetivas do fazer jornalístico. Ela concluiu que a correria e os rígidos horários de fechamento podam o jornalista, fazendo-o apelar sempre às mesmas fontes, “oficiais”. A capacidade profissional acaba se resumindo na competência de adequar-se a condicionamentos e cumprir horários – “rotinização”. Quando perguntados sobre o que é notícia, a maioria dos entrevistados patinava na resposta, e geralmente dizia que era “o que é de interesse público” – uma definição fraca. Além desses problemas, a falta de mobilização de classe agrava a situação. A missão sacerdótica do jornalista com os leitores também é questionada.

O último trabalho da tarde também veio da Unesp Bauru. Murilo César Soares evidenciou o maniqueísmo do tratamento que é dado à imprensa: de tudo salvadora ou destruidora. Essa dualidade é reducionista e simplista demais, e não abrange a complexidade da imprensa. Complexidade essa que deve, segundo Murilo, ser recuperada. Um grupo exercendo liderança e que, para manter essa liderança, tivesse que fazer concessões a outros grupos, incorporando interesses de outros, é o que Murilo prevê com saída para esse quadro. Mais dinamicidade ao contrário do simples a favor ou contra.

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