São Paulo (AUN - USP) - Não são os professores que despertam nos jovens o engajamento sócio-político e a vontade de participar de movimentos sociais, no momento do ingresso na Universidade. O principal estímulo é o contato com outros estudantes e com o movimento estudantil, principalmente durante a recepção dos calouros. A interpretação de Ilana Eleá S. Werneck – apresentada no III Seminário Internacional Latino-Americano de Pesquisa da Comunicação – é fruto do acompanhamento das atividades da ENECOS (Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social). Com base em entrevistas com os estudantes e na observação de suas atividades, a pesquisadora, mestranda em Educação pela PUC-Rio, tem procurado determinar quais as “teias de significado” que os universitários em questão criam a respeito da mídia, e de onde vêm as referências para criá-las. Ilana concentrou seu trabalho – O Movimento pela Democratização da Comunicação por jovens universitários – na movimentação dos estudantes de Comunicação Social por que, segundo a autora, “serão esses os atores que (...) passarão a ocupar o cargo de jornalistas e publicitários em nosso país”.
A temática, proposta em sessão do grupo de discussão “Como democratizar a Comunicação por meio da Educação?”, no dia 13 de maio, é baseada nas observações empíricas de Ilana, que acompanhou de perto o COBRECOS 2005 (Congresso Brasileiro dos Estudantes de Comunicação Social). O evento é considerado uma das principais instâncias da Executiva, especialmente pelo seu caráter político e deliberativo: na ocasião, é votado um caderno de resoluções para o ano seguinte.
O trabalho de Ilana, antes concentrado nos trabalhos da regional carioca da ENECOS, foi amplamente enriquecido pela presença da autora no Congresso: “Lá pude ouvir estudantes falando diferentes sotaques, de todo o Brasil”. A autora aproveitou a presença no evento para também entrevistar estudantes de outros estados a respeito das mediações que contribuem para uma visão tão particular da mídia (a noção de mediações foi proposta pelo pesquisador espanhol Jesús Martín-Barbero, e inclui socialidade, ritualidade, institucionalidade e tecnicidade). Ela buscava entender de onde surge a preocupação com questões sociais em uma geração que, por mais que tenha seu papel político reconhecido, é retratada pela mídia de maneira continuamente negativa: “São os que se envolvem em brigas, com drogas e com a violência que recebem destaque nos noticiários televisivos e nas páginas dos jornais”.
Através das entrevistas, ela pôde ter uma idéia das condições em que se formam os jovens que acabam por integrar os movimentos estudantis. As circunstâncias descritas pelos estudantes variaram desde famílias fortemente ligadas aos movimentos sociais, e que passaram aos filhos o gosto por essa atuação, a pais absolutamente alheios a tais questões, e que até mesmo mostraram-se decepcionados com a escolha dos filhos de estudar Comunicação Social. Ilana enviou ainda, por e-mail, um questionário a cada um dos 148 participantes do Congresso. As cerca de 65 respostas que já recebeu mostraram que a grande maioria dos jovens assiste pouco à televisão (limitam-se a programas como Roda Viva e Observatório da Imprensa, da TV Cultura) e passam mais de três horas por dia navegando na Internet. Os jovens que responderam ao questionário revelaram, ainda, compor uma maioria de ateus.
A novidade
Ainda que pouco reconhecido, e proporcionalmente pequeno, o movimento estudantil (que agregra cerca de 4% dos 34,1 milhões de jovens ouvidos pelo Censo 2000), diz Ilana, pode ser bastante significativo. Ela acredita que colocar em foco grupos de jovens que têm sido capazes de tais ações coletivas é uma forma de se relativizar e questionar o poder dos meios. “Jesus Martin-Barbero [pensador espanhol] já tinha reconhecido a necessidade do eixo do debate se deslocar para as articulações entre práticas de comunicação e movimentos sociais”, escreve em seu trabalho apresentado ao Seminário. Também compartilha dessa opinião o organizador do grupo de discussão, Prof. Ismar de Oliveira Soares, coordenador do Núcleo de Comunicação e Educação da ECA: “A novidade, se vier, virá pelos estudantes”.