São Paulo (AUN - USP) - No último dia do 3º Seminário Internacional Latino-Americano de Pesquisa de Comunicação, promovido pela Universidade de São Paulo, Othon Jambeiro, da Universidade Federal da Bahia, definiu seis pressupostos básicos de uma política pública para a comunicação, além de lembrar o papel da universidade de repercutir sua produção cultural na sociedade. Na mesa redonda, também estavam presentes Enrique Sanchez Ruiz (Universidade de Guadalajara, México), e Valério Cruz Brittos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), que contribuíram com o debate.
Segundo Jambeiro, uma das principais questões que devem ser pensadas para definirmos uma política para o setor são as transformações políticas e ideológicas, pelas quais estão passando os países da América Latina, por exemplo, as incertezas com relação ao Peru e à Bolívia. Ele afirma que isso contribui para que as propostas eleitorais não tenham sido realizadas pelos governos eleitos, com exceção da Venezuela.
O segundo pressuposto são os riscos que a democracia representa, pois não assegura a vitória dos setores progressistas, já que se caracteriza por um debate constante de idéias. Por isso, segundo ele, setores conservadores sempre podem voltar ao poder, visto que “se a esperança e a ilusão podem vencer o medo em determinado momento, a realidade sempre se restabelecerá”, o que indica que diversos fatores sociais influem nos valores ideológicos predominantes.
Jambeiro continua, determinando a importância do contexto histórico atual. A partir da década de 70, houve um retorno ao liberalismo, que torna o negócio de comunicação central no capitalismo mundial. A quarta questão são as transformações científicas e tecnológicas. O desenvolvimento da área de informação, iniciado nos anos 70, provocou uma revolução nas empresas de comunicação na década de 90, sobretudo com o computador em rede. Nesse contexto, os meios de comunicação de massa tendem a ser controlados por conglomerados mundiais e contribuem para a expansão e domínio da economia de mercado.
Ele lembra que uma nova política de comunicação deve considerar também a participação da sociedade. Nesse ponto, precisa ser repensada a atuação da mídia na cobertura dos movimentos sociais existentes e dos que surgem nos campos e nas cidades, reforçados pela desigualdade social. Esses movimentos não são perfeitos ou puros e, por isso, devem ser julgados sobre padrões diferentes daqueles de uma elite intelectualizada. O sexto pressuposto é a incorporação da comunicação pelas organizações internacionais, que delimitam uma nova área de atuação, que pode ir de encontro aos interesses públicos.
Jambeiro acredita que estes seis pressupostos têm de ser levados em conta antes de implementarmos uma política pública para a comunicação. Comunista assumido, ele afirma que qualquer estratégia política deve radicalizar o conceito de democracia e de cidadania, e abrir espaço para as camadas da sociedade como contraposição à prática de promessas não realizadas pelos governos latino-americanos.
Durante o debate, perguntado sobre como tornar práticas essas idéias produzidas na Universidade, Jambeiro afirmou que esta tem diversas funções, entre elas, construir e sistematizar o conhecimento. No entanto, ele acredita que haja uma deficiência no seu relacionamento com a sociedade: “Ela não pode perder seu caráter humanista, ser fechada em si mesma. Ela tem que entregar cidadãos que se voltem para a sociedade”. Como afirma Antonio Candido: sociologicamente, uma obra só está completa quando repercute na sociedade.