ISSN 2359-5191

16/05/2005 - Ano: 38 - Edição Nº: 07 - Sociedade - Universidade de São Paulo
Lúcio Flávio Pinto e seu Jornal Pessoal: informações polêmicas em terra de pistoleiros

São Paulo (AUN - USP) - É numa terra de intermitente tiroteio, em Belém no estado do Pará, que o jornalista Lúcio Flávio Pinto edita e publica o Jornal Pessoal. Com uma redação de uma única pessoa – o próprio Lúcio – ele propõe uma pauta alternativa a imprensa local. Abordando temas como o fluxo de drogas na região, investigando grandes empreendimentos na Amazônia, direcionando seu foco à política regional, fazendo também algumas críticas literárias e de TV, o JP tem uma tiragem quinzenal de dois mil exemplares ao preço de 3 reais, quase sem encalhe. Seu público leitor em geral são pessoas com nível superior e, em grande parte, os jornalistas do estado. Quem expôs todos esses dados é a jornalista Maria do Socorro Veloso, no Seminário Internacional Latino-Americano de Pesquisa da Comunicação, realizado entre os dias 12 e 15 de maio na ECA-USP.

Socorro explica que a idéia de Lúcio editar um jornal sozinho surgiu quando, durante as investigações do assassinato de um político da região, quando preparava uma matéria; o jornalista foi impedido de publicar sua matéria. Daí tornar-se totalmente independente. Essa total independência - o jornal não conta com um único anúncio publicitário – custou-lhe algumas dores de cabeça. Primeiro no aspecto financeiro, já que o jornalista trabalha praticamente no vermelho. Outras enxaquecas surgem quando toca as feridas dos poderosos locais, entre eles políticos e empresários. Atualmente, Lúcio Flávio enfrente mais de 20 processos na justiça e já foi condenado em três – dos quais recorre –, mas ainda assim está próximo de perder sua primariedade cívil, como ressalta a jornalista Socorro.

Em uma de suas últimas edições o jornalista, num artigo intitulado “O dono da quitanda”, traçou o perfil de um dos grandes caciques empresariais do Pará que carrega um lustroso sobrenome. Uma das famílias mais poderosas do estado, os Maiorana são proprietários de meios de comunicação (jornal O Liberal e retransmissor do sinal da rede Globo na região, etc), influentes agentes políticos e bons de briga.

Agressão em público

Por conta do artigo publicado sobre um dos membros do clã Maiorana, o jornalista, ex-correspondente de VEJA para região amazônica, foi espancado pela “vítima” de suas críticas enquanto almoçava num restaurante em Belém. Agredido pelas costas, o jornalista foi ao chão enquanto era chutado e humilhado publicamente, relatou Socorro. Após o incidente, dois seguranças que acompanhavam Maiorana separaram a briga e o levaram. Registrado o boletim de ocorrência, nada de concreto foi feito até então. Nem mesmo o sindicato dos jornalistas se posicionou, afirmando “não se tratar de um caso isolado de outros” no qual jornalistas são vítimas de agressão. O caso apenas foi publicado em meios alternativos de comunicação (Comunique-se, Repórteres Sem Fronteira etc). Na região, apenas A Tribuna – de propriedade do senador Jader Barbalho, adversário político dos Maiorana – deu destaque ao fato.

O jornal de Lúcio Flávio, apesar de editado por uma única pessoa, conta em média com cerca de 11 páginas em formato ofício mesclando informação e opinião. “Uma forma de quebrar esse mito de que informação não contém opinião”, afirma Socorro, reafirmando que “no Jornal Pessoal a informação é claramente opinativa”.

A despeito dos eventuais prejuízos financeiros do jornal – que pode levantar suspeitas sobre financiadores ocultos beneficiados com as críticas –, seu editor vive atualmente de trabalhos de consultoria ambiental e um banco de dados de posse do Jornal Pessoal. Para quem convive permanentemente com enxaquecas editoriais – às vezes hematomas nos olhos – o jornalista Lúcio Flávio passa boa parte dos seus dias incomodado com as freqüentes ameaças de morte que já não o intimidam, mas o preocupam. Afinal, numa terra que não poupou uma freira como a irmã Dorothy Stang, recentemente assassinada por dois pistoleiros a mando de fazendeiros da região, um jornalista “inoportuno” seria apenas mais uma tarefa para a próspera atividade dos pistoleiros do Pará.

Leia também...
Nesta Edição
Destaques

Educação básica é alvo de livros organizados por pesquisadores uspianos

Pesquisa testa software que melhora habilidades fundamentais para o bom desempenho escolar

Pesquisa avalia influência de supermercados na compra de alimentos ultraprocessados

Edições Anteriores
Agência Universitária de Notícias

ISSN 2359-5191

Universidade de São Paulo
Vice-Reitor: Vahan Agopyan
Escola de Comunicações e Artes
Departamento de Jornalismo e Editoração
Chefe Suplente: Ciro Marcondes Filho
Professores Responsáveis
Repórteres
Alunos do curso de Jornalismo da ECA/USP
Editora de Conteúdo
Web Designer
Contato: aun@usp.br