ISSN 2359-5191

10/06/2014 - Ano: 47 - Edição Nº: 23 - Saúde - Escola de Enfermagem
Anticoncepcional de emergência ainda é subutilizado
Pesquisa investiga pouco uso do método, conhecido como “pílula do dia seguinte”, mesmo quando é indicado
Crédito: Anqa/Flickr

São muitos os mitos disseminados sobre a chamada “pílula do dia seguinte”, sendo o principal deles a ideia de que o uso do método tem se tornado cada vez mais abusivo e ganhado enorme proporções. O anticoncepcional de emergência - o nome é utilizado para evitar outro mito, uma vez que ele pode ser utilizado até 120 horas depois da relação sexual - ainda é pouco utilizado, apesar dos altos índices de gravidez não planejada e abortos no Brasil. Uma pesquisa realizada na Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EE-USP) investiga o que leva mulheres a rejeitar o uso da anticoncepção de emergência (AE), mesmo nos casos compatíveis com as três indicações de uso da OMS: relação sexual desprotegida, falha no método de rotina e agressão sexual.

O uso de anticoncepcionais de rotina (preservativos, pílulas de uso contínuo e injeções contraceptivas) é bem disseminado: alcançando 75,2% das mulheres solteiras e 80,6% das unidas, como afirma a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde de 2006. No entanto, mais de 50% das mulheres que abortaram logo antes da pesquisa usavam algum contraceptivo, mas o faziam de forma inadequada, descontínua ou inconsistente.

O único método que pode ser usado depois de uma relação sexual é o de emergência. Assim, ele se torna uma alternativa quando há algum incidente que possa diminuir a eficácia de um método contraceptivo de rotina, evitando uma gravidez indesejada e assim, diminuindo o número de abortos. O que justifica, então, o pouco uso do método, mesmo nos casos em que seria necessário?

A pesquisa de Osmara Alves, da EE-USP, entrevistou gestantes em 12 Unidades Básicas de Saúde (UBS) do bairro do Butantã, em São Paulo. Através do London Measure of Unplanned Pregnancy, questionário que permite classificar se uma gravidez foi ou não planejada, determinou as mulheres que seriam entrevistadas sobre a razão de não terem usado a pílula do dia seguinte. O grupo incluía mulheres que não desejavam ter filhos no momento e as ambivalentes, que não desejavam nem rejeitavam a ideia de engravidar no momento da concepção. Mais de 70% das mulheres abordadas se encaixava nessas duas categorias.

Sem reconhecer o risco

A pesquisa revelou como principal motivo do não uso da AE a pouca consciência das entrevistadas sobre a possibilidade de engravidar: 47,6% delas não reconheceram estar vulneráveis à gravidez na relação em que houve a concepção. Mulheres que moravam com o parceiro tampouco sentiram a necessidade de usar AE, mesmo que não estivessem planejando engravidar em um momento próximo. A ambivalência foi outro aspecto determinante: aparentemente, as mulheres que não refutavam a ocorrência de uma gravidez usavam o método de rotina de forma mais descontinuada e não se sentiam motivadas o suficiente para usar a AE.

A falta de conhecimento sobre o método pode também ser considerada uma barreira para seu uso. A maioria das entrevistadas sabia que a pílula do dia seguinte não substitui a pílula comum, nem protege contra a gravidez durante o mês todo. Porém, 95% não sabia que a AE pode ser usado até 5 dias depois da relação e a maioria acreditava que ela tem efeito abortivo, o que é mais um mito sobre o método. No geral, o estudo demonstrou que o conhecimento específico sobre o método é limitado: nenhuma das entrevistadas acertou todas as questões sobre o tema propostas durante a pesquisa e aproximadamente 10,5% não acertaram nenhuma pergunta.

A pesquisa mostra que é preciso ampliar o conhecimento sobre o método e garantir que as mulheres sejam capazes de reconhecerem situações em que há risco de engravidar. Evidencia-se aí a importância dos profissionais de saúde, “não apenas médicos, enfermeiros e técnicos em enfermagem, mas também farmacêuticos têm que estar preparados para transmitir informação sobre a AE e explicar quando há risco de gravidez e de falha no uso do método de rotina”, conta Osmara.

O estudo também revela especificidades sobre mulheres que já usaram a AE, informações que também desmistificam crenças populares. Das entrevistadas que usaram o medicamento – apenas 9,8% do total de mulheres que não queria engravidar - 79,9% não tiveram nenhum efeito colateral. Elas também adquirem a pílula do dia seguinte nas farmácias, mesmo quando são usuárias da UBS, desestimuladas pela burocracia exigida nas unidades.

Esses relatos e a pouca saída que tem o anticoncepcional de emergência das farmácias da UBS revelam a necessidade de repensar as práticas relacionadas à sua distribuição na atenção primária de saúde. Quanto à falibilidade do método, Osmara diz ser “importante que o profissional deixe a mulher consciente de que, como todo contraceptivo, o de emergência também não apresenta 100% de eficácia, e que quanto mais cedo for usada maior a garantia".

Não existe limite máximo de uso da anticoncepção de emergência em determinado período. Porém, o uso muito frequente é característico de uma situação em que a mulher está se expondo repetidamente a relações sexuais desprotegidas. O ideal, portanto, é que, após usar a AE, ela seja orientada a usar um contraceptivo de uso regular. Também não existem contraindicações para faixa etária. “Adolescente tem direito de receber o método e usá-lo”, conclui a pesquisadora.

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