ISSN 2359-5191

04/09/2014 - Ano: 47 - Edição Nº: 52 - Meio Ambiente - Escola de Artes, Ciências e Humanidades
Parque público serve a interesses de equipes privadas de futebol amador
Parque Ecológico do Tietê. Divulgação.

Em artigo publicado recentemente, o pesquisador Reinaldo Pacheco investigou como o espaço público do Parque Ecológico do Tietê, na zona leste de São Paulo, é ocupado por grupos de futebol amador.

Pacheco, que é professor da EACH, revela que as equipes que possuem permissão de uso dos campos locam o espaço para os organizadores de campeonatos. O pesquisador também descobriu que existem árbitros, organizadores de campeonatos e líderes de equipes que movimentam "uma pequena economia local" relacionada ao lazer.

Numa clara confusão entre espaços públicos que acabam por servir a interesses privados, equipes de futebol amador que detêm a utilização dos campos são pagas pelo uso de tais espaços. A pesquisa destaca que existem "esquemas clientelistas e eleitoreiros que normalmente envolvem o atendimento de demandas deste público".

Foi instalada uma cadeia produtiva do esporte em função dos jogos ditos "de várzea". Comerciantes que dependem da movimentação dos campeonatos lucram com barracas de “comes” e “bebes” por causa da falta de uma praça de alimentação. Árbitros, organizadores e líderes de equipe movimentam uma economia relacionada ao lazer, uniformes e equipamentos utilizados. Patrocinadores podem também ser beneficiados com a possibilidade de propaganda através de faixas.

O professor alerta, no entanto, que a atitude adequada não é a de criminalizar os atores sociais que participam de tal dinâmica. Para Pacheco, essa é uma atitude empreendedora, que só revela o absurdo da ausência de uma política de gestão eficiente do Parque, especificamente, e de espaços públicos em geral.

Gestão

A pesquisa em que o artigo se baseou tinha por objetivo entender o futebol como prática de lazer em várias manifestações, examinar a ocupação do espaço público por praticantes do futebol amador e avaliar a relação entre tais praticantes e os gestores do Parque Ecológico.

A relação entre gestores do parque e praticantes de futebol é descrita pelo especialista como "incômoda". No entanto, o pesquisador destaca que os administradores “são verdadeiros heróis por conseguir, ainda que em condições de trabalho tão precárias, oferecer os espaços para uso da população”.

"A falta de um Plano Diretor pode explicar a dificuldade de planejamento no uso dos recursos públicos que não cumprem a função de garantir o direito ao lazer, em uma unidade com tal intensidade de uso público", comenta Pacheco.

O artigo defende que "a gestão dos parques precisa se tornar compatível com as demandas populares, de forma democrática, mas muito está à revelia do controle estatal". Existe um erro de investimentos no Parque, onde não é possível encontrar nem banheiros femininos, segundo Pacheco.

Recentemente, o Parque gastou R$ 9 milhões na construção de um jardim metropolitano.

Para o professor da EACH,  existe uma sociabilidade que aumenta pela prática do futebol. Famílias inteiras participam dos torneios, e não apenas jogadores. Desconstruiu-se, com isso, a imagem do atleta amador como um "desocupado e marginal", uma vez que existem pessoas engajadas em promover atividades comunitárias.

A Bola Pune

O artigo A bola pune: uso público de parques urbanos em São Paulo e a questão do futebol amador traz no seu título uma expressão usada pelo técnico de futebol Muricy Ramalho. A bola pune jogadores e dirigentes com surpresas no jogo. Por isso, há a necessidade de atenção constante durante os jogos e treinos. Pacheco complementa: "A continuar desta forma pode-se imaginar que a bola há de punir a falta de sensibilidade dos gestores públicos com relação a esta importante prática cultural".

Campos de futebol no Parque Ecológico. Os campos 12 e 13, que não aparecem no mapa, foi destruído e usado como canteiro de obras para um centro de treinamento de um time profissional (no caso do 12) e está em uso de equipes amadoras da região (no caso do 13). Fonte: De Pretri, 2010.

O Parque Ecológico do Tietê conta com 17 campos de futebol de tamanho oficial, sendo 13 na área externa e 150 equipes cadastradas. No entanto, estima-se que entre 200 e 250 equipes não estejam cadastradas e usem esses campos apenas aos fins de semana.

Uma pesquisa realizada com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) serviu de base para a construção do artigo, que foi publicado no livro Animação Sociocultural: turismo, patrimônio, cultura e desenvolvimento local, lançado em abril, num evento promovido pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (Utad), em Portugal.


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