Sabe aquelas peças esquecidas em seu guarda-roupa, que acabam destinadas a brechós ou instituições de caridade? Elas podem ser uma alternativa sustentável e menos custosa financeiramente na criação de roupas, como comprovou Carolina Hernandes Rodrigues, autora do trabalho de conclusão de curso Two point zero: Criação de peças de vestuário a partir de material de descarte pós-uso.
Baseando-se em projeto realizado em sua segunda graduação, em Desenho de Moda, a ex-aluna do curso de Design da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP decidiu estudar e praticar o upcycling - outro termo para a transformação de resíduos em novos materiais. Assim, visitou locais destinados à oferta de roupas usadas e encontrou peças boas condições, apesar da modelagem ou acabamento obsoletos e “encostados”. Na recriação, não procurou desenvolver um produto vintage, mas “remanejar a interpretação das roupas”, ressignificando, assim, o passado.
Discurso e prática
Embora o impacto ambiental da indústria têxtil leve muitos designers de moda a adotar a bandeira da sustentabilidade, a pesquisadora afirma que a intenção muitas vezes fica “só no discurso”, e não foi profundamente explorada em nenhum de seus dois cursos.
Carolina ainda conta que insistiu no tema, apesar de sua “falta de especialização em montagem”, porque acredita que a prática do upcycling faz o usuário questionar a concepção de que roupas usadas e abandonadas têm menor qualidade que um produto novo. “O uso de materiais reutilizados é uma boa alternativa, e traz consigo uma influência no modo de pensar das pessoas”, diz.
Reaproveitamento em larga escala
Apesar de satisfeita com a experiência em desenvolver roupas sustentáveis, a pesquisadora deixa claro que sua “obra final” foi a experiência da criação. Aplicando o método de experimentação direta sobre manequim, Carolina afirma que realizou descobertas impossíveis com processos mais convencionais, como croquis ou modelagem plana.
Durante o desenvolvimento do trabalho, ela também redefiniu e abandonou algumas ideias pré-estabelecidas, de forma que o resultado “era sempre uma incógnita”. Mas, apesar do processo artesanal escolhido, ela é otimista ao comentar a possibilidade de aplicação de algumas técnicas de upcycling, como a refiação de tecidos, em larga escala: “acho que no Brasil, graças à capacidade produtiva da indústria têxtil, é possível que iniciativas como essa sejam adotadas com sucesso”.