ISSN 2359-5191

19/01/2015 - Ano: 48 - Edição Nº: 01 - Arte e Cultura - Instituto de Estudos Brasileiros
Cartas entre Roger Bastide e Mário de Andrade mostram laços de afinidade
O negro brasileiro, literatura e o estudo do folclore são alguns dos temas discutidos pelos intelectuais
Mário de Andrade trocou cartas com Roger Bastide entre 1938 e 1944

Em dia de carnaval, provavelmente em 1º de março do 1938, Roger Bastide desembarcou no Brasil rumo a São Paulo, onde iria assumir a cadeira de sociologia da recém-fundada Universidade de São Paulo. Com um português muito pobre, Bastide começa a corresponder-se com Mário de Andrade, construindo assim uma ponte de afinidades.

No evento Artífices da Correspondência: teoria, metodologia e crítica na edição de cartas, realizado pelo Instituto de Estudos Brasileiros da USP, a pesquisadora Ligia Fonseca Ferreira, da Universidade Federal de São Paulo, apresentou seu trabalho a cerca da correspondência desses dois intelectuais. “Em 1938, Bastide está longe de ser o cientista social que se tornará um interprete do Brasil. Porém, sua posição privilegiada na universidade aliada a curiosidade insaciável pelo país promovem sua rápida integração nas redes de sociabilidade locais, especialmente com o grupo modernista que lidera o panorama crítico da cidade, entre eles Mário de Andrade”, conta a pesquisadora.

A troca de cartas se estende de 1938, ano em que Bastide chega ao Brasil, até 1944, ano anterior ao falecimento de Mário. Um aspecto integrante mostrado pela pesquisadora é que as cartas de Bastide eram escritas em francês, enquanto as de Mário eram em português. “E aqui temos um aspecto curioso, que é essa simetria linguística na correspondência e o fato de que se Mário dominava perfeitamente a língua francesa, Bastide, conforme o relato de seus alunos, mesmo no final da sua estada no Brasil, dominava muito mal o português. Então não deixa de nos intrigar como aquele francês recém chegado teria conseguido ler em tão pouco tempo obras literárias de gêneros tão variados e densos”, conta.

Em suas cartas, os intelectuais tratavam de três temas principais: o negro brasileiro, a literatura e o folclore. “No tema negro brasileiro, Bastide roga a Mário de Andrade que o oriente, que dê referencias biográficas. É a Mário que ele vai recorrer para introduzí-lo ao médico e antropólogo Artur Ramos, que naquela época era considerado nacional e internacionalmente o principal africanista brasileiro”, conta Ligia.

No âmbito da literatura, Mário e Bastide conversavam especialmente sobre a literatura do próprio Mário. O francês mostra-se maravilhado com as obras enviadas pelo escritor brasileiro, se propondo a escrever artigos sobre elas e enviá-los para a França como forma de promover Mário naquele país. Já em estudos sobre folclore, Bastide mostra novamente sua admiração por Mário, tratando-o como grande referência na área. “É um tema bastante presente de uma forma melancólica na última carta de Mário de Andrade para Bastide, escrita por um Mário tomado por um profundo abatimento, carta na qual ele recusava um convite para uma atividade acadêmica. Contudo, Bastide respeitoso, porém, conformado, diria com veemência a seu destinatário taxando-se a si próprio como folclorista amador”, conta a pesquisadora.

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