Adotando a metodologia da Arqueologia da Imagem — área do conhecimento arqueológico que investiga e interpreta vários aspectos das sociedades do passado através das imagens —, a dissertação de mestrado de Alessandro Mortaio Gregori estudou a origem e o desenvolvimento da imagética cristã entre os séculos III e VI d.C.
Levando-se em conta que o processo de cristianização do mundo romano ocorreu de forma lenta e gradativa, o estudo visa explorar e compreender as imagens produzidas durante o referido período, com vistas a identificar a evolução do discurso cristão ao longo da Antiguidade Tardia — periodização histórica que descreve o final da Antiguidade Clássica greco-romana e o início da Idade Média. Segundo o autor, a intenção é dissecar a conexão entre arte e sociedade, através do poder da imagem particularizada na iconografia cristã, entendendo a capacidade que a arte tem de difundir uma doutrina religiosa entre a sociedade e como essa difusão evoluiu conjuntamente, com a disseminação do cristianismo ao fim do Império Romano do Ocidente.
Para tanto, o pesquisador lança mão de conceitos relevantes para o estudo do desenvolvimento e influência da iconografia cristã da época. Como o estudo compreende a análise do desenvolvimento da influência do cristianismo pela via da imagem, primeiramente Alessandro estabelece padrões teórico-metodológicos que norteiam o estudo das imagens cristãs: “O centro da investigação é a imagem e como a Arqueologia pode, a partir deste tipo de documento, levantar questões sobre a sociedade que a produziu”. Neste sentido, a imagem e seus conceitos apresentam-se como suportes para a Arqueologia analisar o contexto da produção artística do período, mesmo que a intenção deste tipo de produção seja diferente da forma como a concebemos atualmente.
A pesquisa das imagens foram reunidas em um banco de dados, resultado da coleta de ilustrações em publicações específicas e websites, considerando que a distância das fontes exigiu este tipo de estudo. O Banco de Dados e Imagens da Arte Paleocristã, como nomeou Alessandro, apresenta 277 imagens e, para cada uma, criou-se uma ficha com categorias determinadas, afim de separar figuras com características imagéticas e comunicativas semelhantes e que pudessem explicar o contexto onde estavam inseridas.
A reunião das imagens pesquisadas e a metodologia da pesquisa — pela via da Arqueologia da Imagem —, ilustram bem a relação entre imagem e objeto de pesquisa. Segundo Alessandro, “como representação visível, a imagem permite encapsular uma mensagem e transmití-la ao público. Embora carregada de discurso, a imagem é ‘muda’, ou seja, é complexo dispor em palavras aquilo que comunica”. Logo, é possível perceber na dissertação de Mestrado do autor, intitulada Comunicação visual na antiguidade cristã: a construção de um discurso imagético cristão do Ante Pacem ao Tempora Christiana (s. III ao VI), a importância que teve a arte na difusão dos ideais cristãos, desde antes o período de proibição e perseguição aos seguidores e mesmo após o Édito de Milão (313 d.C.), que encerra o período de clandestinidade dos cristãos e inicia o processo de espalhamento e desenvolvimento do cristianismo no Ocidente.