ISSN 2359-5191

13/04/2015 - Ano: 48 - Edição Nº: 19 - Arte e Cultura - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
Embate ideológico do início do século 20 definiu a fisionomia paulistana
Autores de várias áreas e opiniões ditaram as tendências urbanísticas e arquitetônicas de São Paulo
Estação da Luz: marco da arquitetura eclética (crédito: fotospublicas.com)

A cidade de São Paulo, palco da Semana de Arte Moderna de 1922, assistiu de perto à busca pela estética genuinamente brasileira e a ruptura com os ideais europeus no início do século XX. Menos comentado, porém, é o debate que se constituiu em torno da própria imagem da metrópole. Ela, além de palco da vanguarda, se tornou objeto de estudo da arquitetura, das artes e do urbanismo, alvo de acaloradas discussões intelectuais nas páginas dos grandes jornais.

Artigos de Menotti Del Picchia no Correio Paulistano e crônicas de Mário de Andrade no Diário Nacional estão entre o material jornalístico, literário e crítico analisado por Joana Mello de Carvalho e Silva e Ana Claudia Veiga de Castro, da FAU-USP, em suas pesquisas de mestrado, que deram origem ao artigo “Inventar o passado, construir o futuro: São Paulo entre nacionalismos e cosmopolitismos nas primeiras décadas do século 20”.

As fontes revelam um forte debate entre a defesa radical do modernismo, o conservadorismo, o patriotismo e outras vertentes de pensamento. Tudo isso fundado na fisionomia da grande metrópole, que sofreu nesse período um crescimento populacional acelerado.

Os protagonistas

"Hoje pode parecer curioso que pessoas de vários campos disciplinares se interessem por discussões fora de sua área de atuação". Na época, porém, autores de várias áreas opinavam e atuavam em outros campos. Os movimentos artísticos e ideológicos abarcavam artes plásticas, música, teatro, arquitetura etc.  

Ricardo Severo, engenheiro e arquiteto de origem portuguesa, era "adepto de teorias de cunho evolucionista e racista, e comprometido com a valorização da colonização portuguesa num momento marcado por um forte sentimento nacionalista." Via na releitura do estilo colonial a verdadeira estética brasileira.

"Mário de Andrade, por sua vez" - afirmam as pesquisadoras – "defendia a mistura das raças, defendia que esta mescla nos constituía e era positiva."

Picchia tinha uma postura curiosa e acompanhava Monteiro Lobato em alguns de seus argumentos. Via a invasão e predominância da cultura europeia pura como negativa, mas culpava os índios e caboclos pela despersonalização: "O índio [...] não deixou um traço estético no Brasil. Sua arte não tinha a grandeza rudimentar dos incas", disse ele. Afastava-se, porém, ao afirmar que o país começaria a se afirmar com a chegada dos imigrantes, cuja cultura, se mesclada com a nativa, daria excelentes frutos.

"Estava em jogo a constituição de uma paisagem urbana que fosse a expressão de uma nacionalidade. Tratava-se de uma batalha simbólica a um só tempo arquitetônica, urbanística, nacionalista e política", concluem as autoras.

São Paulo hoje                                                                                                                                                                                                                                                                                          O Vale do Anhangabaú é um retrato vivo das consequências desse momento. Questionadas sobre o que é visível hoje, as pesquisadoras afirmam: “O amplo conjunto de edifícios ecléticos do centro é uma ‘tentativa’ de atualização com as capitais europeias que se dava naqueles anos. [...] Toda a reformulação que se empreendeu no Vale do Anhangabaú nas primeiras décadas do século 20, da qual hoje restam o Teatro Municipal, a Praça Ramos de Azevedo e o Shopping Light (sede da Light and Power Co.) [...] são fruto desse esforço."

O conjunto do Ibirapuera.

Embora domine a paisagem e o imaginário paulistanos, o eclético dividiu espaço com o modernismo do autor Mário de Andrade e o neocolonialismo de Ricardo Severo. "O neocolonial alcança menos significado na paisagem central, mas se faz presente [...] na Casa Moreira [...] e em dezenas de residências unifamiliares e coletivas erguidas nos diversos bairros de expansão da cidade até a década de 1940."

O modernismo, apesar de contemporâneo ao debate, moldou a cidade com algum atraso. Ele marcou "o Vale do Anhangabaú com arranha-céus como o CBI Esplanada e o Edifício Conde Prates, e bairros inteiros como Higienópolis, alcançando uma espécie de consagração no conjunto do Ibirapuera, inaugurado em 1954, ano do IV Centenário."

O resultado? Ana e Joana afirmam: "No fundo, o que se percebe é a sobreposição de várias propostas e temporalidades, sobreposição que marca uma cidade que, justamente naquele momento, e desde então, se definiria como uma metrópole moderna em eterna construção e destruição. "

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