Com o trânsito diário que a Região Metropolitana de São Paulo enfrenta, fica evidente que o transporte individual vem aumentando cada vez mais. Mas esse tipo de transporte cresce especialmente na periferia. A procura por soluções para esse problema tornou-se, então, foco de pesquisas.
É o caso da pesquisadora Andreína Nigriello, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), que focou suas últimas pesquisas acerca desse tema. Problematizando os motivos do aumento do transporte individual e as principais rotas feitas pelos motoristas, a professora chegou a uma solução possível para a Região Metropolitana de São Paulo.
Tal solução consiste em ligar os polos periféricos da grande São Paulo, para que eles se desenvolvam. Baseada num exemplo de Madri, essa resposta surgiu a partir da análise dos percursos mais realizados pelo transporte individual na Região Metropolitana de São Paulo. Esses trajetos apontam para o déficit do transporte coletivo.
Problematizando a situação
Entre as viagens motorizadas na Região Metropolitana de São Paulo, o transporte coletivo ainda é preponderante sobre o individual. Esse quadro, porém, vem mudando com o crescimento do transporte individual, sobretudo entre a população de até oito salários mínimos.
O estudo trabalhou com a coleta de dados dos anos de 1997, de 2007 e de 2012. É possível perceber que, em todos os municípios da Região Metropolitana de São Paulo houve uma queda na participação do transporte coletivo no atendimento das viagens motorizadas.
Mas é importante ressaltar que há motivos para que isso esteja acontecendo. A facilidade de financiamento na compra de automóveis está longe de ser a única explicação. Os altos tempos de viagem no transporte coletivo e o desequilíbrio entre a demanda de transporte e a oferta vinculada à rede estrutural (com apenas 74,3 km de metrô e 260,6 km de ferrovia) são outras possíveis explicações.
No entanto, o motivo mais forte para esse aumento no transporte individual é a inadequação da atual rede de transporte coletivo metroferroviário. A atual rede apresenta um caráter radial, ou seja, se move das áreas periféricas até o “centro expandido” e vice-versa. Mas as viagens estão cada vez mais perimetrais, entre distritos periféricos do município de São Paulo e demais municípios metropolitanos. Essas viagens que tem por origem e destino a área externa ao “centro expandido” ocorrem em maior fluxo do que as radiais quando o assunto é o transporte individual. Isso ocorre exatamente porque o transporte coletivo não supre esse fluxo perimetral.
A solução e o exemplo prático
Para resolver esse déficit de transporte coletivo e reverter o aumento do número de viagens individuais, a pesquisa apresenta uma possível solução. Trata-se da complementação da atual rede de transporte da Região Metropolitana de São Paulo com linhas perimetrais, ou seja, “linhas em arco”. Essa medida tornaria o deslocamento mais rápido, pois possibilitaria um desvio do “centro expandido”, encurtando os percursos e tempo de viagens.
Além disso, Andreína aponta para a importância do transporte em reordenar o espaço urbano e as atividades. Isso significa que um novo fluxo de viagens em transporte coletivo poderia vir a estimular e unir polos da metrópole que hoje não são estimulados.
Um exemplo de que a acessibilidade precede o desenvolvimento e atrai atividades é o Metrosur de Madri. Trata-se de uma linha de metrô que interliga cinco municípios da grande Madri. Antes da instalação da linha, em 2003, esses municípios apresentavam desenvolvimento econômico inferior em relação aos demais municípios da região. Com o Metrosur, as relações entre esses municípios foram intensificadas, constituindo um polo periférico ao sul de Madri, com alta acessibilidade interna, o que promoveu seu desenvolvimento econômico. Hoje esse polo reúne população, recursos e capacidade suficientes para formar o terceiro núcleo urbano de toda a Espanha.
As atividades que foram instaladas, ao longo do tempo, nessa região poderiam estar presentes em qualquer outro lugar. Mas a acessibilidade presente ali foi o que abriu as portas para que outros recursos se instalassem na região. Dessa maneira, o espaço urbano e as atividades são reordenados, gerando um esperado equilíbrio nas atividades e nos empregos.
Segundo Andreína, o Metrosur é um exemplo bastante viável para a Região Metropolitana de São Paulo. Seguir esse exemplo criaria polos periféricos na metrópole, tendo efeitos positivos de desenvolvimento e redesenho da cidade, como é o caso de Madri.
A importância das bicicletas
Sobre a importância das bicicletas e, portanto, das ciclovias na mobilidade urbana da grande São Paulo, Andreína Nigriello afirma que a bicicleta é fundamental como alimentadora do transporte coletivo. Quem também acredita na bicicleta como peça fundamental na mobilidade são os ciclistas que se manifestaram, nas últimas semanas, contra a decisão do ministério público de suspender as obras de ciclovias na cidade de São Paulo. Na ocasião, a promotora do caso disse que a bicicleta não é um meio de transporte de massa, e por isso sua eficiência é questionável.
Andreína explica que as bicicletas são fundamentais sim, mas não sozinhas. Ou seja, apenas a construção de ciclovias e ciclofaixas não seria suficiente para suprir o déficit do transporte coletivo. É necessário associar esses dois meios de transporte de maneira que os usuários de bicicletas possam chegar até as estações de trem e metrô e, então, possam terminar sua viagem. Assim, a bicicleta teria o papel fundamental de alimentar o transporte coletivo, também contribuindo para a diminuição do transporte motorizado individual.