ISSN 2359-5191

06/05/2015 - Ano: 48 - Edição Nº: 31 - Saúde - Faculdade de Odontologia
Dentistas dos postos de saúde de São Paulo são eficientes no combate ao câncer de boca
Pesquisa da Faculdade de Odontologia da USP mostra que profissionais são engajados na detecção precoce
Profissionais buscam detectar o câncer o mais rápido possível

O SUS, Sistema Único de Saúde, teve seu surgimento com a Constituição Federal de 1988, no período de redemocratização do Brasil. Visando a saúde como um direito universal, o SUS nasceu com a proposta de garantir a todos os brasileiros a saúde pública e integral, admitindo como dever do Estado sua promoção. Em meio ao processo de implantação desse sistema, no entanto, a Odontologia tornou-se uma preocupação dos governos apenas em 2004, quando a Política de Saúde Bucal foi criada. “Se o SUS é um jovem, a Política Nacional de Saúde Bucal é uma criança ainda”, brinca a professora e doutora da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP), Fernanda Carrer, ao falar sobre a presença da Odontologia na saúde pública. Apesar da curta idade de implantação, as pesquisas realizadas pela doutora mostram que o trabalho desenvolvido nos postos de saúde tem resultados positivos para apresentar.

O câncer de boca é, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o quarto tipo de câncer mais presente nos homens da região Sudeste do Brasil, e o nono mais frequente entre as mulheres. Por ano, mais de quatro mil brasileiros morrem graças a ele e o diagnóstico tardio é um dos principais culpados por esses números. Entendendo que alguma ação era necessária para combater esse cenário alarmante, que afeta principalmente as classes com menor renda no Brasil e no mundo, Fernanda decidiu pesquisar como o sistema público enfrentava o diagnóstico dos pacientes com a doença. Começando pelo primeiro elo do sistema com a população, a rede de atenção básica do SUS – composta pelos postos e agentes de saúde – Fernanda identificou como os dentistas agem nesse primeiro contato para atuar na prevenção e no diagnóstico do câncer.

Maiores chances de cura

Os indícios da doença podem variar entre uma ferida que não cicatriza, dificuldade de mastigação ou mau hálito persistente, e o dentista que verificar algum dos sinais deve realizar exames para confirmar a hipótese. Consultando mil dentistas da rede de atenção básica, Fernanda procurou observar quais eram as atitudes tomadas por seus colegas ao encarar um paciente com os sintomas do câncer e ao ter certeza do diagnóstico. Se detectado precocemente, o câncer na fase inicial tem de 80% a 90% de chances de cura, e por isso o trabalho nos postos de saúde é extremamente importante. Para a satisfação daqueles que utilizam a rede pública de saúde, a pesquisadora observou que os dentistas dos postos são dedicados e motivados no combate ao câncer.

“Eles se empenham para dar o diagnóstico o mais rápido possível”, conta a pesquisadora, que diz ter encontrado profissionais aplicados também na busca por cursos que os auxiliem a entender melhor o problema. Fernanda explica que o atendimento adequado na atenção básica é essencial para evitar, tanto no câncer de boca, quanto nos demais problemas de saúde, que o paciente chegue ao sistema público já em crise. “É muito mais oneroso para o sistema tratar um paciente em crise do que prever isso”, enfatiza.

Nos questionários respondidos na primeira fase da pesquisa, 84,22% dos dentistas disseram associar o termo “câncer de boca” à “responsabilidade social”. Segundo a pesquisadora, o que falta a esses profissionais são cursos de capacitação no assunto para ampliar seu conhecimento, de forma que o diagnóstico possa ser dado o mais rápido possível. Fernanda acredita que é dever de Universidades como a USP basear-se nesses apontamentos para disponibilizar e aumentar a oferta dessas especializações.  

Descoberto o atendimento bem qualificado nos postos de saúde, as pesquisas partirão agora para os Centros de Especialidades Odontológicas (CEO). Construídos para lidar com as demandas mais complexas verificadas pelos dentistas dos postos, os CEO’s representam o último contato do paciente com o sistema antes da entrada no hospital. O segundo passo da pesquisa será, portanto, avaliar o que acontece com o paciente encaminhado pela atenção básica, com o intuito de descobrir se existe alguma falha do sistema público neste caminho e encontrar soluções que melhorem os números altos de óbitos causados pela doença.

Desafios

Ainda que a postura dos dentistas avaliados seja adequada, o acesso aos serviços de saúde pela população é muito baixo, e Fernanda aponta esse problema como um dos desafios atuais para os governos. Nos últimos 10 anos, o Brasil aumentou em 400% o número de equipes de saúde bucal na atenção básica, número expressivo, mas insuficiente para atender a demanda reprimida existente, segundo a doutora.  “Temos um longo caminho pela frente e só vamos alcança-lo se Universidades e Governos fizerem esforços conjuntos nesse sentido”, ressalta Fernanda..

Os estudos feitos por Fernanda Carrer fazem parte do desenvolvimento do seu pós-doutorado na Faculdade de Odontologia da USP.Todos os dentistas avaliados trabalhavam em UBS’s da cidade de São Paulo.


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