No final de sua graduação em psicologia, Ana Karina Checchia percorria as ruas e becos da favela de Paraisópolis para atuar na ONG ‘Associação Crescer Sempre’, onde atendia crianças em idade escolar. Por lá, ela teve a oportunidade de observar o funcionamento do sistema educacional e a prática dos profissionais de ensino e psicólogos. Saiu com a impressão de que há um enfoque majoritariamente psicológico sobre o comportamento infantil em relação à escola, que ignora o efeito das condições sociais e políticas e responsabiliza os sujeitos por problemas gerados pela estrutura econômica e social.
Tal percepção é fundamentada por uma corrente crítica de psicologia escolar, que questiona o padrão reducionista do sistema de educação, insistente em culpar os indivíduos pelo fracasso escolar e por comportamentos fora do padrão. Buscando descobrir como a formação dos professores na graduação poderia impactar na prática futura em sala de aula, a psicóloga assistiu a aulas de Psicologia da Educação em faculdades de pedagogia e licenciatura, públicas e privadas, durante o desenvolvimento de sua tese pelo Instituto de Psicologia da USP. Assim, procurou identificar quais contribuições a psicologia escolar poderia oferecer, a partir dessa disciplina, para que o processo de escolarização possa ser compreendido em sua totalidade.
Segundo a pesquisadora, de um modo geral, a forma como a psicologia se insere na formação de professores é muito marcada pela psicologização da educação, que seria o enfoque no indivíduo como ser abstrato, sem considerar que ele está imerso em uma série de elementos sociais. A partir de um levantamento com publicações sobre psicologia escolar, ela constatou que as principais questões tratadas são desenvolvimento humano e de aprendizagem, o que se reflete na estrutura das disciplinas de Psicologia da Educação.
Para sua tese, Checchia focou em duas disciplinas oferecidas por uma universidade pública no estado de São Paulo, uma no curso de pedagogia e a outra em licenciatura. Nas duas, existia a análise de temas relativos à escolarização, sendo que em uma delas também eram explorados etnografia e autores da perspectiva crítica. Ela teve acesso aos diversos documentos produzidos pelos estudantes (como provas e trabalhos), podendo constatar a repetição, por uma parcela deles, de ideias reducionistas para explicar o fraco desempenho escolar. Em alguns casos, no entanto, apareceram discursos que apontam para a corrente crítica, tendência ampliada ao longo do semestre.
Ela destaca que não se pode simplificar a questão do fracasso escolar com discursos que condenam o aluno, sua família e o professor, a partir de ideias formadas pelo senso comum, que tendem a dizer que o sujeito não aprende por desinteresse, por doença ou porque sua família é desestruturada segundo os padrões da sociedade. Pelo contrário, “O secular descaso do Estado com o ensino público e suas políticas educacionais são os principais responsáveis pelo fracasso escolar”, diz.
Em maior ou menor grau, ainda estão presentes no imaginário social tradicionais explicações que responsabilizam unicamente o indivíduo por sua performance escolar, como as influenciadas por teorias racistas, que defendem a superioridade racial; da aptidão natural, em que cada indivíduo nasceria com uma predestinação; organizicistas, que dizem que o problema está no funcionamento do organismo do indivíduo; e da carência cultural, sob a qual a criança que não tem recursos em casa não consegue se desenvolver na escola.
Tais concepções geram uma série de complicações nos âmbitos da psicologia e da educação, como a patologização da queixa escolar, acarretando o uso de medicamentos para corrigir comportamentos fora do padrão; e a exploração de testes de aptidão para determinar o nível intelectual do aluno, que podem oferecer falsos diagnósticos sobre a saúde mental da criança, rotulando-a como incapaz. A psicóloga defende que questões como essas sejam exploradas na disciplina de Psicologia da Educação: “para alterar noções difundidas pelo senso comum, superando estereótipos e preconceitos, é preciso que os professores tenham acesso a esse conhecimento já em sua formação”.
Sob a ótica do pensamento marxista, o sistema educacional brasileiro é baseado no modelo de produção capitalista, interessando a manutenção do caráter reducionista e meritocrático que sustenta o status quo. O aluno está imerso em uma política educacional que muitas vezes não condiz com sua relação como sujeito, o qual não é abstrato mas social e historicamente constituído. Para Checchia, realidades sociais como a desigualdade e a divisão de classes não podem ser ignoradas para que se olhe apenas para o indivíduo abstrato: “essa luta é um compromisso ético e político da psicologia”.
A tese “Contribuições da Psicologia Escolar para a formação de professores: um estudo sobre a disciplina Psicologia da Educação nas Licenciaturas”, de Ana Karina Checchia, foi orientada pela professora Marilene Proença Rebello de Souza, do IPUSP. Defendida em abril de 2015, teve financiamento da CAPES.