“Tinha esse riacho que corria atrás de nossa casa, Paul e eu passávamos quase todas as tardes lá. Nós pegávamos sapos e depois apostávamos corrida. Coisas bobas como essas. Mas depois nós ficamos mais velhos. Começamos a inventar novos jogos. Um dia, Paul me perguntou se podia colocar só para experimentar. Ele disse que se fossemos cuidadosos, não faríamos um bebê”. Barbara conta seu caso a Virginia Johnson. Antes disso, nunca havia conversado a respeito do abuso que sofrera, vários anos antes. Paul era seu irmão.
Essa cena foi ao ar na segunda temporada de Masters of Sex, série norte-americana que retrata as pesquisas pioneiras sobre sexualidade humana desenvolvidas pelo Dr. William Masters e Virginia Johnson, na década de 1960. Demonstra (embora ficcionalmente) alguns dos dilemas enfrentados por mulheres violentadas sexualmente e que mantêm o episódio em segredo. A psicanalista Luciana Ferreira Chagas procurou entender o comportamento dessas mulheres em sua dissertação de mestrado pelo Instituto de Psicologia da USP, trazendo à tona questões pouco exploradas sobre a relação das vítimas com a violência.
Durante sua passagem pelo Hospital das Clínicas, ela pôde ouvir histórias de mulheres que haviam sofrido violência sexual em algum momento de suas vidas, geralmente na infância, constatando o caráter diverso que motiva o segredo. A proximidade com o agressor e os sentimentos de vergonha e culpa são geralmente apontados pela literatura da área como os principais motivos para a omissão. Contudo, como propõe a pesquisa teórica desenvolvida por Chagas, o silenciamento não ocorre apenas em função dessas características. Frequentemente, o segredo resguarda uma posição subjetiva que não pode ser revelada com tranquilidade pela vítima.
A psicanalista atendeu 27 pacientes que chegaram à instituição de saúde com algum adoecimento, encaminhadas para o atendimento psicológico após médicos perceberem em seus sintomas histórico de violência física. No momento da consulta, 21 mulheres revelaram pela primeira vez a experiência da violência sexual vivida anteriormente. Em 89% dos casos a violência foi vivenciada já durante a infância; cometida por um parente ou homem próximo em 96% dos relatos; por meio de atos obscenos, sedução, carícias e voyeurismo, sem ato sexual com penetração, em 95% das mulheres atendidas. Foi constatado que 93% do total de pacientes apresentavam quadro de transtorno psicológico, com sintomas que variavam em depressão, síndrome de pânico, ausência de libido e compulsão.
Muitas das mulheres escutadas apresentavam o discurso da experiência da violência sexual na infância e a repetição ao longo de toda a sua vida. Isso ocorre pois a criança, ao caminhar no sentido de suas investigações sexuais e deparar-se com um adulto agressor, poderá construir futuros modos de estabelecer suas relações de afeto a partir desse modelo. Considerando que a violência sexual na infância ocorre mais frequentemente em relações onde o afeto está presente, o “homem agressor” poderá ficar valendo como referência de amor para essa menina, futura mulher.
A repetição da violência sexual ao longo da vida também pode estar relacionada a uma fantasia de masoquismo alojada no inconsciente da vítima. Esse funcionamento de repetição seria uma forma de realização do desejo inconsciente, evidenciando a relação entre essa característica e a fantasia. Os objetos de desejo se constituem a partir de nossas próprias referências, de nossas próprias fantasias inconscientes. Segundo Chagas, “A opção por guardar segredo pode dizer ou encobrir algo da ordem da fantasia”.
O contato precoce da criança com o ato sexual real, contra sua vontade consciente, pode trazer consequências maléficas em sua constituição psicossocial e possíveis perturbações psíquicas, manifestadas na vida adulta. Muitas das entrevistadas apresentavam sintomas que atestam isso, assim como Barbara, a personagem ficcional de Masters of Sex, possuía um distúrbio conhecido como vaginismo, em que os músculos da vagina se contraem involuntariamente impedindo a penetração. Tal distúrbio pode ter sido ocasionado pelo trauma de infância. “Sintomas manifestados atualmente podem denunciar hoje o que não pôde ser denunciado no passado, representando o que nunca foi dito”, aponta a psicanalista.
Ela defende que o tratamento psicológico das vítimas de violência sexual considere a função do segredo na vida dessas mulheres, preocupando-se com o papel da fantasia inconsciente e resguardando a posição subjetiva das pacientes. “Elas devem ser escutadas. Não podemos apenas levantar uma bandeira escrito ‘conte’ ou rotular o segredo como motivado por medo ou culpa, simplesmente”, diz. “É necessário que o ‘contar’ ou ‘manter segredo’ seja cuidadosamente analisado”. Além disso, o tratamento talvez possa ser capaz de interromper a repetição, não apenas na vida da mulher violentada mas em gerações futuras, já que muitas mães vítimas de violência sexual têm filhas que passam por situações semelhantes as que elas viveram durante a infância, possivelmente pelo segredo transmitido entre gerações.
É importante frisar que a definição de violência sexual engloba estupro, tentativa de estupro, sedução, atentado ao pudor, atos obscenos e assédio. Mesmo quando o ato sexual ocorre com o “consentimento” da vítima, de forma “forçada”, esta pode se sentir violentada e desenvolver um trauma, segundo a psicóloga Luciana Chagas. O tratamento ainda assim é importante e se faz necessário, sendo uma forma de atenuar o sofrimento das pacientes e possibilitar a interrupção no ciclo de repetição da violência.
De acordo com estimativas da Organização Mundial de Saúde, cerca de 12 milhões de mulheres e meninas são vítimas de violência sexual anualmente em todo o mundo, sendo que apenas 10% dos casos chegam às delegacias. Estima-se que uma em cada três meninas já sofreram alguma forma de violência sexual. No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, o SUS atende cerca de duas vítimas do sexo feminino por hora. Pouquíssimas recebem tratamento psicológico adequado.
Defendida por Luciana Ferreira Chagas em agosto de 2014, a dissertação “Afinal, segredo de quê? Uma leitura metapsicológica da função do segredo na violência sexual e o atendimento em instituição de saúde” foi orientada pela professora Maria Livia Tourinho Moretto.