A pesquisadora Letícia Segeren, do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da USP, buscou investigar se a falta de comunicação oral apresentada por algumas crianças com autismo estaria relacionada com o aumento de estresse dos pais. No entanto, ao contrário do que Letícia esperava, o estudo revelou que esses pais apresentam um nível mediano de estresse.
O Distúrbio do Espectro do Autismo é uma síndrome comportamental complexa, que compromete o processo de desenvolvimento durante a vida. Existem variações na intensidade do distúrbio e nos sintomas apresentados por ele, mas a comunicação é um aspecto especialmente afetado em pacientes diagnosticados com autismo.
Pessoas autistas requerem atenção durante a vida toda, mas também é necessário prestar atenção aos cuidadores desses pacientes. Isso porque, segundo a pesquisadora, o nível de estresse dos pais de crianças com autismo é maior do que o de pais de crianças com desenvolvimento típico ou de crianças com outras deficiências, como Paralisia Cerebral ou Síndrome de Down. Letícia explica que isso se dá graças ao quadro geral do autismo, ou seja, ao comportamento apresentado, aos preconceitos enfrentados e à necessidade de dedicação praticamente exclusiva dos pais à criança.
Foi buscando observar as condições dos cuidadores que Letícia iniciou sua pesquisa. Para realizá-la, foram selecionados 75 pais de crianças autistas e 100 pais de crianças sem distúrbios. Eles foram divididos em três grupos, sendo o primeiro composto de pais de crianças autistas que não apresentam fala, o segundo de pais de autistas que apresentam comunicação oral e o terceiro, por pais de crianças sem nenhuma queixa.
Todos os grupos responderam três questionários: um referente à qualidade de vida, criado pela Organização Mundial da Saúde, um sócio-demográfico e um sobre nível de estresse, ambos formulados pela pesquisadora. Letícia explica que teve dificuldade em achar um teste de estresse padronizado e que pudesse ser aplicado por uma fonoaudióloga, sem necessidade de um profissional de psicologia. Quanto ao questionário sócio-demográfico, a pesquisadora explica que preferiu fazer um pois precisava apenas de alguns dados e não viu necessidade de usar algo tão elaborado.
Sobre os resultados obtidos, Letícia aponta que a principal conclusão foi que a ausência de oralidade na comunicação de crianças autistas não afeta os níveis de estresse dos pais. “A maioria dos pais dos três grupos apresentaram médio nível de estresse. Não houve diferença significativa entre os pais de crianças com autismo, seja com ou sem comunicação verbal”.
No entanto, a pesquisadora ressalta um ponto importante. “Quando os pais de crianças com autismo foram comparados aos pais do grupo controle (pais de crianças sem queixas), foi verificada diferença significativa: mais pais de crianças com autismo apresentaram alto nível de estresse. Além disso, o estudo mostra que quanto maior o estresse apresentado pelos pais, menor é sua qualidade de vida”.
Letícia diz que sua pesquisa será continuada, mas dessa vez serão comparados os níveis de estresse apresentado entre o casal de pais e, posteriormente, serão avaliados os níveis antes e depois da intervenção realizada.