ISSN 2359-5191

18/04/2001 - Ano: 34 - Edição Nº: 04 - Saúde - Instituto de Física
Feixe de prótons é alternativa no combate ao câncer

São Paulo (AUN - USP) - Retornou ao Brasil, após 29 anos desde sua última visita ao país, o professor da Universidade de Munique, Jorrit de Boer. Físico nuclear, de Boer pisou pela primeira vez em solo brasileiro pouco tempo após a inauguração do acelerador de partículas do Instituto de Física da USP. Voltou, na semana passada, em nova missão: a de gerar entusiasmo entre as comunidades científica e médica por uma inovadora modalidade de radioterapia.

O professor de Boer trabalha, atualmente, com pesquisa e divulgação de uma técnica de tratamento ao câncer que utiliza um feixe de prótons ao invés do convencional raio-x. Dedica-se à física médica desde 1991, quando seu irmão gêmeo desenvolveu um tumor no olho. Preocupado com os efeitos colaterais causados pelo uso de raios gamma no combate a tumores, de Boer encontrou na terapia com prótons uma alternativa menos nociva ao organismo.

Em linhas gerais, a radioterapia consiste em aplicar doses de radiação no tecido canceroso impedindo o crescimento das células, o que acaba por matá-las. “Infelizmente, os efeitos da radiação não se restringem às regiões afetadas pela doença e causam danos graves a tecidos sadios também. Portanto, o grande desafio do radiologista é calcular a dose mínima necessária para combater o tumor, limitando assim a morte de células adjacentes”, explicou o professor de Boer.

Os raios de próton possuem uma série de vantagens em relação aos raios geralmente utilizados na radioterapia. São compostos por núcleos de hidrogênio acelerados que chegam a atingir metade da velocidade da luz. O próton é 2000 vezes mais pesado do que o elétron, partícula predominante no raio-X. Segundo o professor de Boer, esse é um dado importantíssimo porque permite que o feixe de prótons abra um caminho reto pela matéria, ao contrário do que ocorre com outros raios. “O trajeto e o efeito podem ser comparados aos de uma bola de bilhar que corre através de um grande número de bolas de pingue-pongue: o percurso da bola pesada é reto, enquanto as bolas leves de pingue-pongue são desviadas para os lados. Algo semelhante ocorre quando os pesados prótons chocam-se com elétrons”, explicou o cientista. E é esse o fenômeno que corresponde à lesão das células. Entretanto, devido ao pouco desvio sofrido pelo raio de prótons ao penetrar a matéria, é maior a correspondência entre o volume irradiado pelo feixe e a área a ser tratada, minimizando assim os efeitos nocivos sobre tecidos sãos.

De acordo com o professor de Boer, outra característica dos prótons em alta velocidade utilizados no tratamento ao câncer é seu alcance ajustável. É possível regular o feixe de forma que ele penetre o organismo somente até trespassar a massa cancerosa, não provocando lesões às células que ultrapassem esse limite. Além disso, os prótons acelerados, ao contrário de outras partículas utilizadas na radioterapia, depositam sua dose máxima de energia a uma pequena distância do fim de sua trajetória. É possível, portanto, ajustar o alcance do feixe para que o pico de seu efeito recaia sobre o tumor a ser tratado.

A história da terapia com prótons é menos recente do que se poderia imaginar. A nova modalidade de radioterapia foi proposta pela primeira vez em 1945, pelo cientista Robert Wilson. Entretanto, o tratamento é realizado em pouquíssimos locais do mundo. Os grandes expoentes são o centro Loma Linda, na Califórnia e o Massachussets General Hospital, em Boston, sendo que o primeiro utiliza raios de próton para tratar pacientes com câncer desde 1992.

Ao todo, no mundo, cerca de 30 mil pacientes já receberam irradiação com prótons. É um número muito pequeno. O Hospital do Câncer de São Paulo, por exemplo, atende uma média de 2 mil novos casos da doença por ano e cerca de dois terços de seus pacientes fazem radioterapia em alguma etapa de seu tratamento. Uma das chaves para entender o porquê da limitada disseminação da terapia com prótons é, justamente, o peso da partícula utilizada. Comparados a elétrons, prótons são verdadeiros brutamontes. Conseqüentemente, é mais difícil acelerar e direciona-los. Por isso, a construção de uma instalação voltada unicamente para o tratamento de pacientes com câncer chega a custar US$ 150 milhões. É preciso ressaltar, também, que essa forma alternativa de radioterapia só pode ser utilizada no tratamento de tumores localizados e não é eficaz em casos que apresentam metástase.

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