Uma pesquisa realizada pela mestranda do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da USP, Raquel Gomes, provou que os protetores auditivos do tipo “concha” não se mostraram eficazes na proteção total de trabalhadores expostos a ruídos ocupacionais.
Muitos ambientes de trabalho oferecem riscos auditivos a seus funcionários. Entre eles, a mais comum é a Perda Auditiva Induzida por Níveis de Pressão Sonora Elevados (Painpse), que pode gerar danos irreversíveis à audição, tornando sua prevenção e controle essenciais. Desde 1950 os protetores auditivos vêm sido utilizados no combate aos perigos oferecidos pelos altos níveis de pressão sonora. Assim, Raquel decidiu dedicar a temática de sua pesquisa a avaliar a real eficácia desses dispositivos.
Para isso, foram selecionados 30 indivíduos do sexo masculino expostos a ruído ocupacional. Raquel aponta que o motivo para terem sido selecionados apenas homens foi o fato da indústria escolhida para a realização da pesquisa contar apenas com homens nas funções com ruído e que exijam proteção auditiva, mas ressalta que nada impede a participação de mulheres na avaliação. Após a seleção, os indivíduos responderam a um questionário, foram submetidos a um exame, chamado meatoscopia e avaliados individualmente através do método conhecido como Mire (Microphone In Real Ear).
O questionário é composto de perguntas sobre saúde geral — não apenas auditiva — e perguntas sobre o protetor, como se havia incomodo em usá-lo ou hábito de retirá-lo durante o trabalho. Sobre a meatoscopia, Raquel explica: “Meatoscopia é a investigação do meato acústico externo, região onde comumente passamos o cotonete. Com um aparelhinho chamado otoscópio, conseguimos olhar todo o meato e o tímpano. Assim, sabemos se há excesso de cera, infecção, perfuração do tímpano ou qualquer outra alteração que possa impedir ou atrapalhar a realização de outros procedimentos do estudo”. Quanto ao Mire, é um equipamento de avaliação composto de dois microfones: um de lapela, que é colocado na roupa do sujeito e um de sonda, que fica dentro do ouvido, com o protetor por cima dele. O microfone de lapela capta o ruído sem proteção e o de sonda, com a proteção fornecida pelo protetor concha. A diferença entre as medidas captadas pelos dois microfones é a atenuação gerada pelo uso do protetor auditivo.
Os resultados obtidos mostraram que houve diferença ao se comparar as médias de ruído captados pelo microfone de lapela e o de sonda, mostrando que o protetor fornece uma atenuação significativa. No entanto, 30% dos trabalhadores avaliados estavam subprotegidos. “Existem algumas hipóteses sobre o porquê desse resultado, como a colocação incorreta, protetor inadequado para o ruído ao qual o trabalhador está exposto, e também o incômodo que alguns relatam com o uso do protetor, o que faz com que ajustem ou retirem-no, prejudicando a proteção”, afirma a pesquisadora. Outro resultado interessante é que os níveis obtidos pelo estudo sobre a atenuação fornecida pelo protetor foram semelhante aos valores fornecidos pelos fabricantes dos protetores em quase todas as frequências testadas.
“O estudo nos mostra a importância de individualizar a escolha dos protetores, pois cada trabalhador responde de um jeito a um mesmo protetor. Se escolhemos um único tipo para todos os trabalhadores, a chance de encontrarmos subproteção em alguns será grande”.