Na produção científica, as palavras-chave de uma pesquisa facilitam sua divulgação e apontam elementos de seu conteúdo. Dessa forma, o banco de palavras-chave de uma instituição que promove pesquisas mostra o que nela é estudado - e aceito. O fandango caiçara, manifestação cultural de destaque e reconhecimento cada vez maiores, só foi registrado como palavra-chave na USP recentemente. Bruno Esslinger de Britto Costa, responsável pelo registro inédito, buscou estudar, em sua dissertação de mestrado realizada no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB/USP), como as formas musicais do fandango se relacionam com as transformações socioeconômicas da comunidade caiçara.
O fandango envolve danças e músicas típicas, como as modas, e está intimamente ligado a um modo de vida próprio das comunidades caiçaras do litoral sul de São Paulo e do litoral norte do Paraná. As festividades são promovidas como retribuição a mutirões e trabalhos coletivos realizados pela comunidade, numa espécie de pagamento não monetário. Os fandangueiros também compõem as modas e constroem seus próprios instrumentos musicais. Para Bruno,“o fandango é uma complexa unidade entre trabalho e lazer e entre dança, música e poesia”, entre outras relações.
Essa unidade, no entanto, “vem sendo afetada pelas pressões que os caiçaras sofrem com a privação de seus meios de vida tradicionais”, diz o pesquisador. Entre esses fatores de transformação, estão a modernização econômica do litoral, a chegada das igrejas evangélicas e desdobramentos da preservação ambiental local. Bruno afirma que a “desarticulação da unidade e da transmissão das tradições orais vem do processo de modernização desigual, violento e reorganizador do território”.
As comunidades caiçaras desenvolveram um modo de vida particular no litoral norte do Paraná e no litoral sul de São Paulo. Essas regiões eram periféricas durante o período colonial e foram pouco modificadas em outros processos de modernização. Uma das maiores faixas de Mata Atlântica do Brasil, ecossistema mais degradado ao longo da história do país, foi assim preservada. Para Bruno, os caiçaras não deixaram as florestas intocadas, mas “se foram preservadas, é porque havia populações tradicionais fazendo o seu manejo”.
Hoje, com o estabelecimento das unidades de conservação e proteção da Mata Atlântica, e também com a urbanização do litoral, houve restrição das atividades tradicionais dos caiçaras, como a agricultura e a extração de madeira. Bruno afirma que “a preservação ambiental é contraditória, ao significar muitas vezes a própria expulsão dos caiçaras das terras que eles ajudaram a manter preservadas”. A pesquisa aponta que a sociabilidade das comunidades, que se assentava na interdependência entre sociedade e natureza, foi cada vez mais dificultada. Isso levou o mutirão, elemento fundamental do fandango, a entrar em declínio, pois a população, muitas vezes expropriada e expulsa de suas terras, teve de se adaptar a uma vida “monetária” e baseada no consumo.
Bruno analisou algumas modas do fandango, pois, para ele, são testemunhos da memória e das transformações no modo de vida caiçara. A pesquisa aponta que, antigamente, as temáticas do amor e do trabalho na roça eram as mais recorrentes. Os fandangueiros, diante da marginalização socioeconômica em que estão imersos, hoje narram sua condição de “sujeitos monetários desprovidos de dinheiro”, afirma o pesquisador. Uma breve comparação entre as letras de duas modas ilustra esse processo de mudança temática.
As modas acima evidenciam as mudanças socioeconômicas na comunidade caiçara. Crédito: Guilherme Fernandes.
Em Avião no Estrangeiro, há uma clara identificação do cantador com o trabalho na “sua” roça, ou seja, realizado na “sua” propriedade. Já em Compra de Palmito, a ideia de trabalho é completamente diferente. Para o pesquisador, as palavras cativeiro e dinheiro explicitam uma relação “marcada pela exploração do trabalho informal na extração do palmito juçara que, apesar de proibida por lei, representa uma fonte de renda para muitas famílias caiçaras”. Os versos “Quem tira não ganha nada, quem compra dinheiro tem” enfatizam ainda mais a dura realidade imposta pela modernização.
As tradições caiçaras têm, assim, se inserido cada vez mais numa lógica de mercado, encontrando no turismo local possíveis fontes de renda, como a venda de artigos artesanais e a apresentação de fandangueiros em hotéis. Para Bruno, “todas essas formas estão distantes da unidade entre o trabalho e o lazer que caracterizava o fandango”.
A pesquisa, feita sob orientação do professor Walter Garcia, também reflete sobre os usos da palavra “caiçara”. A desarticulação do modo de vida rural fez com que a pesca, que já ocorria tradicionalmente, se tornasse cada vez mais uma atividade econômica exclusiva para as comunidades. Isso reforçou a imagem do caiçara unicamente como pescador. Bruno também chama atenção para a conotação pejorativa que o termo adquiriu historicamente, por meio do processo de marginalização socioeconômica, como a ideia perversa do caiçara como alguém avesso ao trabalho.
O pesquisador também coloca que o termo tradicional, usado para se referir à cultura caiçara,ganhou “um forte peso político através dos editais públicos e projetos de fomento voltados à continuidade do patrimônio cultural”. Essas iniciativas são, atualmente, importantes instrumentos para a manutenção de tradições populares em geral. Há exemplos na comunidade caiçara, como o projeto Museu Vivo do Fandango, que foi reconhecido pela Unesco, em 2011, como uma das melhores práticas de proteção do patrimônio mundial. Outro marco foi o reconhecimento do fandango caiçara como Patrimônio Cultural pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), em 2012.
Para Bruno, a modernização pode ser entendida, por um lado, como a promessa de emancipação do homem por meio da ciência, da tecnologia, da razão. Mas por outro, também pode ser associada a um empobrecimento da experiência humana, marcada por um tempo social da mercadoria e pela constante promoção ideológica do cotidiano urbano-industrial. O pesquisador enfatiza que, apesar de todas as transformações, “o fandango continua a narrar a vida dos caiçaras, surgindo hoje como uma possibilidade de afirmação da identidade dessas comunidades no mundo contemporâneo”. A pesquisa mostra, assim, segundo Bruno, que “a coexistência entre formas tradicionais e modernas não é algo simples”, implicando numa série de questões contemporâneas, como o meio ambiente, o patrimônio imaterial e a relação campo-cidade.