ISSN 2359-5191

01/07/2015 - Ano: 48 - Edição Nº: 61 - Arte e Cultura - Instituto de Estudos Brasileiros
Cartas de Mário de Andrade confirmam seu projeto intelectual para o modernismo
Correspondências que o escritor trocou com diversas personalidades revelam a história modernista e trazem reflexões sobre sua própria obra
Crédito: Foto do Arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros – USP.

Ao pedir para a família que lacrasse sua correspondência por 50 anos após sua morte, Mário de Andrade mostrava preocupação com o legado do modernismo. O escritor, que fez uma intensa troca de cartas com diversas figuras, preservou esse material. Ele firmou, assim, seu projeto de contribuir para a história do modernismo brasileiro.

Mário havia estabelecido uma rede de comunicação até então nunca vista na vida literária brasileira. Cerca de 7.700 cartas do autor, entre outros documentos, estão atualmente no acervo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. Para Marcos Antonio de Moraes, professor do IEB e pesquisador de correspondências no Brasil, as cartas de Mário trazem a percepção da literatura como processo e do modernismo como movimento - e não período - literário. “É possível enxergar uma história que vai se fazendo a partir dos consensos, das oposições e das tensões”, afirma Marcos.

Também é possível entender aspectos das obras de Mário de Andrade, pois nas cartas ele analisava seu processo de criação, mostrando os "andaimes" de sua produção literária e ensaística. “A obra de Mário nunca estava pronta, estava sempre em processo, mesmo depois de publicada”, diz Marcos.

Para o professor, Mário foi uma espécie de centro de convergência do modernismo. Por cerca de três décadas, até sua morte, em 1945, ele se correspondeu com pintores, literatos e músicos, de grande projeção, como Portinari e Villa-Lobos, ou principiantes, o que mostra a força de sua sociabilidade. O escritor tinha noção da potencialidade e do valor testemunhal das cartas, sobretudo para o futuro. Marcos afirma que “um artigo de jornal discute ideias, enquanto na carta as ideias também estão lá, mas o debate é potencializado pelo caráter humanizador e pessoal dessa escrita”.

O autor de Macunaíma estava preocupado em preservar a história do modernismo, deixando sua correspondência como legado. Ele inclusive deixou indicações e anotações nos documentos, para facilitar o entendimento deles no futuro. Ao mesmo tempo, respeitava a questão ética envolvida nas cartas, omitindo mensagens e a identidade das pessoas, quando julgava necessário. A pintora Anita Malfatti, por exemplo, pediu que Mário rasgasse uma carta em que ela mostrava grande afeto pelo escritor. O modernista respeitou a decisão e atendeu ao pedido. No entanto, ele não se desfez de uma carta, como pedia Anita, em que ela desaprovava uma exposição de Tarsila do Amaral, pois o escritor queria registrar as diferenças dentro do modernismo.

“Mário não só respondia às cartas, mas fomentava o diálogo e fazia suas ideias circularem”, diz Marcos. O escritor investiu-se de uma espécie de missão intelectual, usando o potencial de questionamento, sedução e convencimento da carta. O professor menciona que Mário de Andrade tinha consciência de seu papel de memorialista do modernismo, ao mesmo em que movimentava o ideário estético-nacionalista de naturza crítica.

As cartas também possuem um projeto pedagógico, pois havia “a intenção de Mário de servir como professor às novas gerações”, segundo Marcos. Ao dialogar com jovens principiantes, como Fernando Sabino, ele tentava estabelecer uma relação simétrica com eles. “Mário acompanhava a formação, sugeria leituras, mas também colocava o outro na parede, quando necessário, evitando que seu interlocutor se acomodasse”, conta o professor.

O escritor também construiu uma autobiografia por meio das cartas, ao longo do tempo. Quando reunidas em período cronólogico, é possível ler a vida de Mário de Andrade. O professor ressalta, no entanto, que “foi uma autobiografia lançada ao vento, porque ele não guardou cópias das cartas que enviou. Muita coisa se perdeu”. Marcos também explica que essa autobiografia é fragmentária, marcada pela encenação e pelos mascaramentos, como em toda carta, pois essa comunicação situa-se em um determinado contexto e leva em consideração o nível de relacionamento com quem se fala.

Numa correspondência, ele contou para Anita Malfatti que havia feito uma cirurgia de apendicite. A Manuel Bandeira, ele disse que foi uma operação de hemorroidas. Para o professor, “as conveniências do período não permitiam que ele contasse isso à amiga”. Se não houvesse a carta ao Bandeira, “poderíamos imaginar que a verdade fosse o que está na carta da Anita”, diz o professor. Isso nega, portanto, a ideia recorrente de que as cartas são a expressão máxima da verdade, explica Marcos.

Antes da abertura das cartas, em 1997, após 50 anos de espera, já se sabia da importância delas. Manuel Bandeira publicou as cartas que trocara com Mário em 1958, abrindo a possibilidade de se entender melhor as obras e projetos do autor. Outras personalidades, como Carlos Drummond de Andrade, também publicariam, mais tarde, as cartas recebidas do autor de Pauliceia Desvairada.

Para Marcos, o pedido do escritor para que suas cartas fossem lacradas por 50 anos, respeitado por sua família, confirma as intenções do projeto intelectual de Mário. “O projeto só poderia ser percebido com a distância no tempo. Os mexericos e questões pessoais menores, depois de 50 anos, perderiam o interesse, e o que ganharia relevo seria a questão histórica, ligada ao modernismo”, afirma. Se as cartas tivessem ficado abertas, poderiam ter se dispersado.

Quando as cartas foram disponibilizadas em 1997, no IEB/USP, para onde foram transferidas em 1968, recuperou-se a interlocução das cartas que Mário recebeu com as cartas que ele enviou, muitas delas então já publicadas. “Foi possível ver os embates, ver os dois lados”, comenta Marcos, já que, para ele, a carta é lugar de invenção e construção de si.

O professor ressalta que o estudo das correspondências “sempre foi, de certa forma, relegado a um segundo plano nos estudos na literatura brasileira, pois as cartas deveriam, em princípio, permanecer no espaço privado, protegidas pelo segredo”. Quando essa documentação vem à tona, no entanto, pode contribuir para o entendimento da obra do autor e ampliar o conhecimento de sua biografia. Recentemente, a área ganhou impulso, com um maior rigor nos métodos editoriais de correspondência.

Mário de Andrade é o autor homenageado da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, que ocorre de 1º a 5 de julho. Marcos explica que houve convênio entre Flip e IEB. “Dialogamos várias vezes com os organizadores e concedemos entrevistas que serão veiculadas na Feira”.  Parte expressiva do material do Mário a ser mostrado no evento faz parte do acervo do IEB.

Ainda neste ano, a Edusp pretende lançar dois novos volumes da Coleção Correspondência Mário de Andrade, com as cartas trocadas entre Mário e o pensador católico Alceu Amoroso Lima, e também com o escritor e jornalista Newton Freitas.

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