Com o constante crescimento da expectativa de vida e da disseminação dos métodos de prevenção contra a cárie, é cada vez mais rara a presença de jovens desdentados nas cidades. No entanto, tornou-se maior agora o tempo ao qual os dentes ficam expostos ao desgaste, e a pesquisadora Márcia Cristina Lopes, da Faculdade de Odontologia da USP (FOUSP), notou recentemente que esse desgaste é elevado e evolui rapidamente entre adolescentes. O problema, ainda sem causas conhecidas, pode derivar de uma dieta baseada em alimentos e bebidas ácidas, como o consumo alto de refrigerantes, por exemplo, ou de alguma patologia.
Desgaste dentário é a degradação de um ou mais tecidos que formam o dente. Composto por três partes principais – polpa, dentina e esmalte –, os dentes geralmente sofrem de desgastes leves, que atacam somente o esmalte e têm origem natural (fisiológica). Nestes casos, o problema costuma ser adquirido através de fatores como a alimentação e a escovação. Já os casos mais preocupantes, e que podem requerer a intervenção do cirurgião-dentista, são aqueles que afetam a dentina.
Estudando um grupo de 203 estudantes adolescentes com 15 anos de idade, a pesquisadora Márcia Cristina Lopes buscou entender como se dava a incidência, a prevalência e a progressão do desgaste dentário nesses jovens, ou seja, quantos o possuíam, se esse desgaste prevalecia com o tempo, e como era a sua evolução. Para que a pesquisa obtivesse os resultados do avanço ao longo do tempo, Lopes visitou duas vezes Rio Grande da Serra, a cidade do interior paulista onde examinou os jovens sendo a última visita um ano e meio após coletar os primeiros dados do estudo. Para verificar as diferenças encontradas, a pesquisadora utilizou-se do Índice de Desgaste Dentário (IDD).
Prevalência elevada
Na primeira visita, Lopes observou um número alto de adolescentes com desgaste, quase a totalidade dos examinados. Mais da metade das superfícies dentais avaliadas (56,3%) apresentou perda das características do esmalte, enquanto 2,1% das superfíciesmostrava desgaste na dentina. Voltando novamente para Rio Grande da Serra em 2013, a pesquisadora encontrou números diferentes.
Agora, com somente 121 dos estudantes avaliados ainda matriculados nas escolas - um dado claro da enorme evasão escolar na cidade -, a percentagem de superfícies afetadas na dentina de 2,1% passou para 8,6%, e neste curto intervalo de tempo, 80,2% dos adolescentes reexaminados apresentou pelo menos uma superfície dentária com progressão do desgaste para o tecido da dentina. Atentando-se para descobrir se essa evolução mudava de acordo com o gênero, fatores socioeconômicos e/ou a ausência de dentes, a pesquisadora percebeu que, se por um lado gênero e a falta de dentes não relacionavam-se ao resultado, os fatores socioeconômicos tinham respaldo neste: adolescentes com renda familiar inferior a três salários mínimos e com mães que não cursaram o ensino médio tinham taxas mais altas de crescimento do desgaste dentário.
Fisiológico ou patológico?
Apesar dos aumentos, a pesquisadora ressalta que os desgastes mais presentes ainda eram os leves e que não se pode saber, sem estudos mais aprofundados, se a causa dessas progressões está associada a algum fator patológico (doença). “Estão se fazendo vários estudos para ver o quanto isso é fisiológico e o quanto é patológico”, comenta a doutora ao explicar que o desgaste pode até mesmo ser natural e sua progressão estabilizar em determinada idade. Essas são respostas que, segundo ela, só serão obtidas com pesquisas. E Lopes promete seguir com projetos para encontrá-las.
Enquanto os resultados oficiais sobre a evolução do desgaste não são divulgados, é importante que os adolescentes se previnam de maiores problemas. A doutora recomenda que os jovens evitem o consumo exagerado de alimentos ácidos e a prática de roer unhas, além de aconselhar que aqueles que já possuem algum desgaste esperem cerca de 20 minutos antes de escovar os dentes após as refeições.