Considerável parcela dos problemas de alfabetização no Brasil estão atrelados ao ensino da língua como um conjunto de regras pré-estipuladas que não aceitam contestação e, portanto, tornam o processo de aprender mais complexo. A fim de oferecer recursos que facilitem tal estágio, os professores Fernando Capovilla e Kelly Casado, ambos do Instituto de Psicologia (IP) da USP, escreveram o livro “Quebrando o Código do Português Brasileiro: Como calcular a cifrabilidade de qualquer palavra falada e a decifrabilidade de qualquer palavra escrita”.
A obra vem acompanhada pelo software “Voz Brasileira” e apresenta uma transcrição do português de acordo com o alfabeto fonético internacional, o que possibilita a análise das relações entre as unidades da fala (fonemas) e da escrita (grafemas). Entender estas ligações permite que se compreenda o grau de dificuldade de leitura e escrita de qualquer palavra, ponto essencial para se produzir livros de alfabetização e elaborar currículos escolares.
Segundo o professor Capovilla, as diversas possibilidades de grafar um som tornam a alfabetização um processo muito mais custoso, principalmente quando são incorporadas novas letras e reduzidas as dicas de pronúncia - como aconteceu após o novo acordo ortográfico que diminuiu os acentos diferenciais e diacríticos. O software “Voz Brasileira” enumera para cada som da fala todas as formas de escrevê-lo, e para cada forma de escrever quais são as possibilidades de pronuncia. Além disso, ele apresenta quais os sons mais frequentes e como cada novo som pode ser registrado. “Se um som está incorporado na cultura, ou seja, se tem alta frequência de uso, ele é passível de reconhecimento e comparação léxica”, afirma.
Tal método comparativo colabora para que se entenda o porquê de um som ter uso mais recorrente do que outros. Se uma criança está em processo de alfabetização, por exemplo, ela pode pronunciar a palavra tóxico exatamente como se escreve, e não como se no lugar do “xi” estivesse “quissi”. Isso acontece, pois o uso da sílaba “xi”é muito mais comum no português do que “quissi”.
O mesmo recurso pode ser aplicado às diferentes formas de grafia: é o que acontece quando uma criança redige a palavra iPhone como “aifone”, pelo simples fato daquela estrutura ser mais coerente com o que aprendeu até então, ou chuchu como “xuxu”. O pesquisador ressalta, que tais construções estão incorretas, porém são apropriadas, uma vez que representam o que foi escutado. Além disso, não significa que o aluno não esteja alfabetizado, e sim que ainda não detém total domínio das normas e regras que regem o idioma.
Livro terá sua segunda edição lançada no final de 2015. Foto: Divulgação
O professor Capovilla explica, que a percepção da fala é um processo psicológico e funciona como um misto entre o visual e o auditivo. No caso da leitura orofacial, por exemplo, certos sons da fala não são visíveis e, por essa razão, necessitam de formas de mão para auxiliar sua compreensão. Isso acontece porque algumas formas de boca possuem mais de uma opção fonética. No livro, estão registradas quais formas de boca são altamente legíveis e decifráveis, e quais precisam de algum reforço.
Essas noções são necessárias, principalmente, no que tange o processo de alfabetização de crianças com problemas auditivos. Para ter domínio sobre a leitura orofacial o aluno precisa estar alfabetizado, pois ler lábios implica em observar os movimentos feitos com a boca e traduzí-los em um conjunto de sílabas previamente aprendidas. Dessa maneira, é necessário que o professor tenha conhecimento em libras e parta das relações básicas entre o som e a fala. “Já houve propostas para que se dispensasse a língua de sinais e se usasse a leitura labial durante a alfabetização, uma maneira de uniformizar a aula. No entanto, logo percebeu-se que o plano era falho, pois os alunos não compreendiam o que era dito. Neste estágio, entendemos a importância de interpretar as premissas do som e da fala”, pontua o professor.
Além de oferecerem recursos que auxiliam o trabalho do professor em sala, o livro e o software dispõem de artifícios que permitem maior interação entre os pesquisadores. Os estudos na área de psicologia, linguagem e escrita tendem a classificar as palavras de acordo com três possíveis denominações: regular, irregular ou regrada à preposição. Desta forma, cada pesquisador cria sua própria lista de palavras, composta pelas variáveis que deseja analisar, e avalia se a criança está, de fato, alfabetizada.
Contudo, algumas palavras não possuem classificação específica - justamente por poderem soar de diversas maneiras. Este fator, acrescido de parâmetros específicos criados por cada pesquisador, impede que sejam feitas comparações entre diferentes métodos de alfabetização. O livro permitirá a avaliação do grau de cifrabilidade e decifrabilidade entre listas diferentes, otimizando a interlocução dos estudos na área de alfabetização infantil. A obra, publicada pela editora Memnom, terá sua segunda edição lançada no final de 2015.