ISSN 2359-5191

02/02/2016 - Ano: 49 - Edição Nº: 6 - Saúde - Departamento de Fonoaudiologia, Fisioterapia e Terapia Ocupacional
Doença de aversão a sons ganha voz a partir de pesquisa da USP
Através de estudo e campanhas de conscientização, Misofonia começa a ganhar espaço na mídia e em redes sociais
Aversão a sons chega a interferir na qualidade de vida / Fonte: Reprodução

Mastigação, digitação em teclados, latidos e, até, respiração são sons que podem desagradar qualquer pessoa. Mas existem aquelas em que este desagrado atinge um nível muito mais elevado, em que acessos de raiva se tornam comuns. A aversão é tanta que acaba impossibilitando que esta pessoa se concentre em suas atividades, interferindo em sua qualidade de vida. Estes sintomas são característicos de pacientes com misofonia, que ao pé da letra quer dizer aversão a sons. O assunto ainda é pouco conhecido no Brasil, mas começa a ganhar destaque graças a Tanit Ganz Sanchez, professora de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina e, atualmente, pesquisadora do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da USP. Em parceria com sua aluna Fúlvia Eduarda, a professora já começou o estudo  de uma família com 12 casos de misofonia, o que pode provar o caráter hereditário do problema.

Também conhecida por síndrome dos quatro ‘S’s (Síndrome da Sensibilidade Seletiva a Sons), a misofonia normalmente tem início na infância ou adolescência e pode estabilizar ou piorar ao longo da vida. De acordo com a professora, o diagnóstico da misofonia deve ser lembrado quando “as pessoas vão adquirindo um conjunto  de sons que começam a incomodar, ou mesmo que seja um só, como o latido de um cachorro, o incômodo é tão grande que provoca acessos de raiva e limita a  qualidade de vida”. Tanit explica que é o poder que aquele som exerce sobre pessoa que causa esta limitação. “A minha hipótese é que a misofonia deixa as pessoas desesperadas porque, para elas, os sons  dominam a atenção e impedem que elas façam o que querem ou precisam naquele momento”, explica. “Ela desperta uma reação de raiva extremamente forte, rápida e instantânea. Uma das melhores frases que ouvi para descrever isso foi: ‘Ou você que matar quem está fazendo isso, ou quer morrer porque tem isto’”, conclui a pesquisadora.

Apesar da aversão a certos sons, as pessoas com misofonia não apresentam problemas auditivos, o incômodo é gerado pela relação do cérebro com aquele som. ”Normalmente a via auditiva dessas pessoas está perfeita, mas a entrada do som por essa via, em questões de segundos, cria um vínculo com o cérebro e com o sistema límbico, que é o centro das emoções. Então, a misofonia é um fenômeno desencadeado entre o som entrar, percorrer a via auditiva e se conectar com as outras áreas cerebrais”, diz Tanit. Este vínculo acaba interferindo na qualidade de vida da pessoa, que não consegue desviar a atenção do som e, muitas vezes, tem uma reação agressiva como xingar ou até mesmo agredir a pessoa que está emitindo o som.

 

Caráter hereditário


Com a descoberta  de uma família com 12 casos de misofonia, a pesquisa avança e ganha mais atenção da sociedade. Tanit diz que já desconfiava de um caráter hereditário, mas a visita de Maria Lúcia — primeira integrante da família a fazer contato com a pesquisadora — gerou uma boa surpresa. “Eu já tinha essa noção de que os pacientes tinham um ou outro parente de outra geração que também tinha  aversão aos sons, até que eu atendi a Maria Lúcia, que disse: ‘na minha casa todos são assim’”, explica. A família  está espalhada pelo nordeste, por isso as entrevistas foram feitas à distância. “No fim, com o contato de todos, estamos fazendo uma arvore genealógica da família”.

Além da possível prova da hereditariedade da doença, o contato com a família ajuda a compreender mais profundamente as características dos sintomas. Para chegar nestas respostas, professora e aluna elaboraram um questionário que aborda diversos aspectos dos pacientes e de suas aversões. “Estamos fazendo uma pesquisa através de um questionário que foi enviado a todos. Encontramos 12 pessoas, cujas respostas geraram um quadro com uma série de aspectos e especificidades de cada um deles”.

Dar voz à misofonia é o maior objetivo da professora, já que poucas pessoas e profissionais têm conhecimento de sua existência. Exemplo disso é o fato de que a síndrome ainda não é registrada como doença pelo Código Internacional de Doenças (CID), sendo apenas considerado um transtorno neurótico não especificado. Apesar de ainda estar no início, a pesquisa de Tanit e Fúlvia juntamente com outras iniciativas da professora e seu Instituto, como o projeto de conscientização SOS Misofonia (disponibilizado em www.misofonia.com.br), têm extrema importância para que o problema seja conhecido e levado com seriedade, melhorando a qualidade de vida de centenas de pacientes que sequer sabem de sua condição.

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