ISSN 2359-5191

23/05/2001 - Ano: 34 - Edição Nº: 08 - Educação - Escola de Educação Física e Esporte
Agressividade esportiva feminina é analisada em suas particularidades

São Paulo (AUN - USP) - O esporte é uma atividade que dá vazão às manifestações agressivas, dado o caráter de competição que envolve as relações entre atletas interna e externamente às equipes. Traçar um perfil do comportamento agressivo em suas influências ambientais e investigar os fatores que o caracterizam especificamente na prática esportiva feminina são o fundamento do recém-concluído estudo “Comportamento agressivo em grupos esportivos femininos”, desenvolvida pela pesquisadora Líbia Tender Macedo, da escola de Educação Física da USP.

O estudo aborda a agressividade não apenas em sua ocorrência esportiva, mas numa perspectiva generalizante, para então considerar suas particularidades no esporte. Para isso, realizou-se uma análise psicossocial do atleta, na relação de sua individualidade com o meio coletivo em que ele vive. O interesse em analisar especificamente a vivência feminina da agressividade partiu das experiências da própria pesquisadora e relaciona-se, também, à visão difundida de que a agressividade no esporte á uma ocorrência tipicamente masculina, num meio originalmente masculino. Para verificar como a agressividade se desenvolve entre as mulheres, Líbia preocupou-se em analisar os fatores ambientais e psicológicos que atuam sobre atletas de vôlei, basquete, handebol e futebol de salão em situações competitivas, atentando para as diferenças de modalidades e as variações entre os diferentes grupos etários – categorias juvenil, até 18 anos, e principal, a partir dos 19 anos.

A idéia de que, no esporte, o comportamento agressivo encontra um terreno fértil de difusão se deve não apenas ao contato físico, mas também às paixões, regras e aos valores que compõem a competição esportiva. A noção de que os esportes mais agressivos são os de contato perde terreno para uma análise psicossocial dos envolvidos nas arenas dos treinamentos e competições.

Primeiro, a agressividade, com bases em considerações teóricas e análises psicanalíticas, é vista sob cinco diferentes óticas, complementares: um comportamento natural, intuitivo; uma reação às frustrações; um fato social criado e reforçado pelas coerções da vida em comum; um desvio patológico e uma manifestação positiva/construtiva ou negativa/destrutiva, dependendo de sua intensidade e forma.

A tese de agressividade natural, por exemplo, encontra seus pressupostos na Teoria do Instinto, que explicita uma natureza humana essencialmente predadora. Numa visão freudiana, é um reflexo da pulsão que direciona a agressividade aos seres que impeçam a conquista, pelo virtual agressor, de seu objeto de prazer. Já a Teoria da Frustração ilumina pontos intimamente vinculados à vivência dos atletas em conjunto, quando a agressividade se pronuncia em torno da frustração, como uma “resposta de necessidades não-adquiridas”. A insatisfação que aí se envolve delineia duas saídas possíveis: a que se transforma em ansiedade, aliada à criatividade, a a que descamba na agressão pronunciada.

Ansiedade e agressão, ao contrário do que se imagina, não são posturas semelhantes. Vivendo em grupo, o esportista encontra a necessidade de circunscrever seu espaço dentro da equipe, de provar sua competência na disputa de posições e mesmo de inscrever-se no contexto competitivo, de mostrar a que veio. Na Teoria da Frustração, a ansiedade, aliada à criatividade, é uma resposta positiva à decepção do atleta de não conseguir alcançar o seu objeto do desejo. “Um certo grau de ansiedade é necessário e eficiente para a competição esportiva”, afirma Líbia em seu estudo. Já agressividade é uma resposta negativa ao mesmo desafio de se superar as frustrações. Se é essa a via desenvolvida pelo atleta frustrado, então delineia-se um percurso de estresse, e não de criatividade, que culmina na postura agressiva. Vale ressaltar que o estresse é fruto também de dificuldades nas próprias competições, tais como torcida, críticas, nível do adversário e arbitragem, combustíveis para posturas agressivas dentro de quadra ou campo. Tais posturas agressivas nos relacionamentos dentro da equipe, não desencadeiam necessariamente a violência física, visto que elas têm diferentes formas de se manifestar.

A partir dessa abordagem psicossocial, toma-se o comportamento agressivo feminino em suas especificidades. As diferenças biológicas entre homem e mulher não são desprezíveis nessa análise, por exemplo quanto ao fator hormonal. Embora nada se possa concluir com veemência a respeito do quanto as questões biológicas influenciam o comportamento dos indivíduos, diz a pesquisa, “é preciso considerá-las como parte dos processos dinâmicos que devem interagir com os fatores sócio-psicológicos”. As perspectivas culturais em torno da mulher também são apontadas pela pesquisadora, sendo tomadas como determinantes para a postura esportiva feminina: ‘a mulher se sente estritamente ligada à percepção que possui de si mesma e de que está submetida ao poder dos outros”, num universo de desigualdades e de valores masculinos.

A pesquisa conclui que as mulheres manifestam sua postura agressiva de modo diferente dos homens: de maneira indireta, principalmente através de grito e mau humor. Entre diferentes grupos etários, não se verificaram substanciais variações comportamentais. Já entre as diferentes modalidades, observou-se que, no voleibol, o assunto agressividade foi mais facilmente comentado e trabalhado nas entrevistas; a autora especula que tal fato se deva à menor presença da agressividade nesse esporte, o que a torna mais fácil de ser discutida.

Na manifestação indireta da agressividade feminina, uma dualidade: quando compromete a feminilidade, o comportamento agressivo pode ser camuflado, mas também usado pela atleta para inscrever-se enquanto integrante da competição, ou seja, para conquistar seu espaço. Reforça-se, assim, a percepção da rede de influências entre indivíduo e coletivo orientando a convivência em grupo e a expressão das expectativas da atleta.

Essa dialética entre a individualidade do atleta e o coletivo é evidenciada no estudo, através na Teoria da Aprendizagem Social, como um dos pontos chaves do comportamento agressivo. Ressaltando-se o papel do grupo esportivo, entra a questão a “tendência dos indivíduos de agirem conforme o tratamento que receberam de outra pessoa”: a postura diante do grupo depende também da harmonia que se instaura entre seus membros. O esporte, embora crie também unidade grupal, torna a equipe amplamente suscetível a desestabilizações em função da dificuldade em se estabelecer convívio harmonioso diante de disputas várias, internas e externas. Este convívio é, certamente, um inevitável desafio. Um trabalho que transpõe a diferença dos sexos e convida homens e mulheres à conquista de sues espaços conscientes de que à agressividade estressante existe a alternativa da criatividade na vivência das labutas rotineiras de treinamento e competição.

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