São Paulo (AUN - USP) - Adolescentes pobres, entre quinze e dezenove anos, moradoras das favelas Mendes e Iguaçu, zona sudeste de São Paulo, esperam encontrar um homem que queira casar-se e assumir seus filhos de relacionamentos anteriores. É uma das surpresas apontadas pela tese “Jovens Mães e processos de construção de suas identidades”, defendida pela assistente social, doutoranda Rosa de Lourdes Azevedo dos Santos, sob orientação do professor Rubens de Camargo Ferreira Adorno. Trata-se de meninas que cresceram num local onde há falta de saneamento (o rio Iguaçu é um esgoto a céu aberto) e assistência médica e a violência e o tráfico de drogas imperam. Meninas que são obrigadas a, desde cedo, assumir o papel das mães, deixando inclusive de freqüentar a escola, para cuidar dos irmãos mais novos. Nas favelas não existem espaços para entretenimento. O divertimento são os bailes, que se realizam sempre um pouco afastados das favelas, nos quais elas declararam ter perdido a virgindade e engravidado de homens, em geral, bem mais velhos, que não assumiram a paternidade. A perda da virgindade significa perder o respeito perante a sociedade da favela. O sonho destas meninas é encontrar um homem que as assuma e ao filho, casando-se com elas para que sejam novamente respeitadas.
Uma filha que engravida é um descaminho. Em casa, são rejeitadas pelos pais, pois gravidez significa uma pessoa a menos para botar dinheiro em casa e uma a mais para comer. Quando não se casam, as jovens mães continuam morando no barraco dos pais ou nos fundos, em moradias ainda mais precárias, sem a menor privacidade e espaço físico para abrigá-las e ao bebê. Quando a criança nasce, há uma trégua: a avó passa a ajudar e apoiar a filha, embora haja um preço: transformam-se em donas de casa, empregadas da mãe e mães. Não vão mais aos bailes, não podem mais conversar ou se relacionar com as amigas que não têm filhos ; enfim, vivem reclusas, sentindo total solidão.
A pesquisa revela também que há explícita repetição da vida de suas mães: das quinze entrevistadas, treze declararam ser filhas de jovens mães. Os padrões tradicionais são também mantidos pelas entrevistadas, expressados quando desejam o casamento formal, porque acreditam que é o meio de serem respeitadas, constituírem uma família e assumirem a rotina da casa. O cotidiano do conjunto das jovens mães é marcado não só pelas desigualdades sociais e de gênero, mas pela violência que se instalou na região. Morar longe da favela é o sonho que aparece em segundo lugar, por causa da violência, pelo medo do futuro dos filhos.
A hora do parto é considerada o momento da vida em que elas passam a se sentir ‘mulheres’ - e não a primeira menstruação. “A mulher que não tem filho não é mulher" é voz corrente entre as entrevistadas. Apesar disso, quando indagadas, manifestam o desejo de “ser homens”. Para elas: - “...o homem é folgado, sem responsabilidades. Pode ter até dez mulheres, e filhos com todas elas, e continuar sendo respeitado...”
A Pesquisa
A assistente social desenvolveu o trabalho entre os anos de 1999 e 2000, na área de abrangência da Unidade de Saúde Iguaçu – onde, na época, Rosa era diretora –, nas favelas Mendes e Iguaçu, situadas no bairro Parque São Lucas na Região Sudeste do Município de São Paulo.
Na primeira parte da pesquisa, foi feito um mapeamento quantitativo das adolescentes que tiveram filhos e moravam nas referidas favelas, visando à caracterização do perfil sócio-demográfico, história reprodutiva, situação conjugal, suporte familiar ou social diante da gravidez/maternidade das jovens mães cadastradas na Unidade de Saúde, a partir da implantação do Programa QUALIS/PSF (Qualidade Integral de Saúde/Programa Saúde da Família). O mapeamento desenhou o perfil de 97 mães jovens.
A segunda parte é um levantamento de dados de natureza qualitativa, com quinze jovens mães que tiveram seus filhos na faixa etária entre os 15 e 19 anos, integrantes do mapeamento realizado, com o objetivo de compreender o significado da vivência da maternidade no cotidiano das jovens cadastradas e os processos de construção de suas “identidades”. Os depoimentos demonstraram que elas experimentaram muito mais o “ficar” que o “namorar”. A perda da virgindade apresentou-se problemática por ser considerada a marca da mulher “direita”, “pura”, pronta para o casamento. A gravidez aconteceu inesperadamente, ocasião em que ocorria, para algumas, o abandono dos parceiros.
Rosa ressalta que não ouviu as vozes paternas nem as mães das protagonistas. O tema pode ser aprofundado por quem se interessar.