São Paulo (AUN - USP) - Uma pesquisa com microorganismos está sendo feita no estuário de Santos, na tentativa de se eliminar a poluição no local. Esse projeto, coordenado pela professora Vivian Pellizari, pretende conhecer a diversidade microbiótica de uma região poluída, para depois analisar o potencial desta área, a fim de saber se ela poderá sofrer a bio-remediação.
A bio-remediação é uma técnica usada para a recuperação de áreas impactadas com o auxílio de microorganismos que sejam naturais do meio. Primeiro, escolhe-se uma certa região que esteja poluída por xenobióticos (compostos químicos que foram industrializados e depois lançados no ambiente). Daí, faz-se a caracterização microbiológica da área para saber se os degradantes estão presentes, quais são eles , como estimular suas atividades metabólicas. Depois, estimula-se o crescimento da espécie significativa para que ela possa degenerar a toxina, que na maioria dos casos acaba tornando-se fonte de energia para a própria bactéria. Com a utilização desse método são evitadas outras alternativas que agridem muito mais o meio, como: incineração; inoculação de outro ser vivo na região que possa não se adaptar ou interferir na cadeia alimentar e até desequilibrar mais o ambiente do que fazia o xenobiótico.
Este projeto tem como objetivo caracterizar as bactérias existentes no estuário e utilizar aquelas que consigam degradar três tipos de poluentes: o bifenilo-poli-clorado (PCB); o penta-cloro-fenol (PCP) e os hidrocarbonetos de petróleo. Os dois primeiros são toxinas mais difíceis de serem degradadas, contudo, um estudo piloto, produzido um pouco antes do começo do projeto, mostrou que é possível sim a degradação do PCB. Este resultado positivo incentivou a equipe, cuja preocupação principal seria eliminar estes três poluentes, usados principalmente pelas refinarias.
No caso do PCB, já se sabe que ele é volátil, portanto, sua capacidade de espalhar-se pelo ambiente, através das precipitações, é melhor do que a de outros xenobióticos. Além disso, o PCB é lipofílico, o que significa, ter bastante afinidade pela gordura. Segundo a professora Vivian, este componente vai se acumulando na cadeia alimentar, através dos nutrientes ingeridos, até chegar a proporções preocupantes para a vida das pessoas, gerando problemas que podem ser letais, como intoxicações. “Há um estudo na Saúde Pública que já revelou que, aqui em São Paulo, o PCB está presente na gordura humana numa concentração muito maior do que em outras regiões industrializadas do mundo”, completa a pesquisadora.
Esta é a primeira vez, em ambiente nacional, que se pretende conhecer a diversidade em uma escala maior, como, por exemplo, no estuário santista. Este local foi escolhido devido a enorme problemática que o cerca: a poluição industrial gerada pelo pólo de Cubatão; a contaminação das águas de rios, como o próprio rio Cubatão, que são utilizadas para o consumo populacional; devido ao regime de marés, elas entram e saem do estuário levando toxinas para a baía de Santos onde várias pessoas ficam expostas durante o banho de mar. “O estuário tornou-se uma boa escolha, embora ambiciosa”, comenta a professora.
É interessante perceber que, no Brasil, pesquisas como esta, chamada Biodiversidade de Bactérias Degradadoras de Poluentes Xenobióticos no Estuário de Santos eram bastante limitadas, pois existiam poucas espécies de bactérias exploradas e algumas identificações incorretas. Além disso, os poucos microorganismos analisados eram exclusivos para fins clínicos, e não se pensava em usá-los para melhorar as condições ambientais. Contudo, atualmente, a disponibilidade tecnológica é maior e instituições, como a Fapesp, vêm subsidiando tais trabalhos.