São Paulo (AUN - USP) - Há um desequilíbrio ambiental provocado pelo uso demasiado de fertilizantes nos campos para abastecer uma população mundial que não pára de crescer, rapidamente. A forma de produção de alimentos, hoje em dia, é insustentável, sob o aspecto ecológico. Como a oferta de alimentos tem que suprir a sua procura, os agricultores fazem cada vez mais uso do salitre e dos fertilizantes, cujos componentes principais são os compostos nitrogenados. Estas substâncias são vitais para o crescimento saudável das plantas e, por isso, indispensáveis na agricultura.
Há cem anos, sabe-se da existência de bactérias que conseguem captar o nitrogênio do ar e transformá-lo em compostos nitrogenados. Descobriu-se que elas viviam ou no solo, ou associadas, facultativamente, às raízes de leguminosas, plantas produtoras de vagem, como a soja e o café. Porém, não são somente as leguminosas que estabelecem relações deste nível com bactérias fixadoras de nitrogênio, "todas as plantas, da região subtropical, mantêm uma associação com, pelo menos, um tipo destes microorganismos", é o que diz o professor Crodowaldo Pavan, pertencente ao laboratório de Fisiologia de Microorganismos, que está pesquisando sobre um tipo específico destas bactérias, as endofíticas.
O trabalho do professor Pavan é fazer um levantamento das bactérias endofíticas (que vivem dentro dos tecidos vegetais) fixadoras de nitrogênio, descobertas há apenas vinte anos pela pesquisadora da Embrapa, Johanna Döbereiner, para conseguir detectar entre elas, algum caso de simbiose. Esta é uma relação obrigatória e vantajosa para as duas espécies envolvidas - bactéria e planta. A sua descoberta, e posterior controle, significaria a substituição dos fertilizantes poluentes pela inoculação desses microorganismos endofíticos nas plantações. "A solução para combater a poluição ecológica produzida por resíduos nitrogenados e por outros componentes químicos, que compõem os adubos, seria a utilização destas bactérias", afirma Pavan.
O problema do uso de fertilizantes na agricultura está na sua quantidade. Os plantadores despejam pelo solo, obrigatoriamente, o dobro daquilo que será absorvido pelo vegetal, senão, o que foi sugado pelas raízes não será o suficiente para seu desenvolvimento. Embora os agricultores pensem que - diz o professor - acrescentando a esse dobro ainda mais uma porção a planta ficará mais forte, eles se enganam. Os vegetais absorvem os compostos nitrogenados até atingir a saturação, após isso, tudo que for lançado ao solo ou será levado para o lençol freático pela chuva e pela irrigação, ou irá para rios, lagos e, atualmente, manguezais. "A espécie humana é um parasita obrigatório do meio ambiente e se quisermos sobreviver, precisamos agir como as outras espécies de parasitas, utilizando-se do hospedeiro, sem prejudicá-lo ou destruí-lo", explica Crodowaldo Pavan.
Segundo o professor, há maneiras para se conservar o meio ambiente, já demonstradas. Como a experiência positiva da pesquisadora Johanna Döbereiner, que, usando linhagens de cana de açúcar adaptadas ao solo e ao clima brasileiros, conseguiu ter uma produção por área quase igual a dos Estados Unidos, que é o maior produtor por área do planeta. A diferença entre os dois é que, durante a pesquisa de Johanna, não se usou fertilizantes, mas sim as leguminosas entre as plantas da safra, enquanto os EUA utilizavam adubos sintéticos. "Apesar desse bom resultado, o governo brasileiro não acredita em desenvolvimento científico e, infelizmente, faltam-nos recursos para pesquisar.", indigna-se Pavan.