ISSN 2359-5191

31/10/2008 - Ano: 41 - Edição Nº: 116 - Sociedade - Centro Universitário Maria Antônia
Becket escrevia como um compositor, diz músico
Samuel Beckett, autor de Esperando Godot, utilizaria conceitos típicos da música para escrever suas obras, de acordo com compositor argentino

São Paulo (AUN - USP) - Samuel Beckett operaria como um compositor ao escrever suas peças, acredita o compositor argentino Martín Bauer. O autor de Esperando Godot, em seu processo criativo, utilizaria as mesmas funções que um músico, como repetição e combinação, para obter os resultados sonoros que buscava em sua obra.

Bauer e o diretor brasileiro Rubens Rusche foram os convidados do seminário “Beckett e Música”, do 43° Festival de Música Nova, e falaram a um pequeno público no Salão Nobre do Centro Universitário Maria Antônia, da USP, recentemente. Em pouco mais de duas horas de palestra, Bauer discorreu sobre o aspecto intrinsecamente musical da obra de Beckett e Rusche comentou sobre as ambições artísticas do dramaturgo irlandês.

Bauer citou a Carta Alemã, escrita por Beckett a um correspondente alemão em 1937, em que o dramaturgo afirma buscar uma “literatura da não-palavra”, e comentou que Beckett buscava na literatura aquilo que a música já tinha conquistado com as pausas e o silêncio. A forma como a duração das pausas de Esperando Godot, de 1952, são determinadas no próprio texto seria um primeiro indício desse objetivo na dramaturgia de Beckett.

Entretanto, seriam as obras posteriores de Beckett que melhor traduziriam a aspiração musical do dramaturgo. De acordo com Rusche, o objetivo de Beckett era privar de sentido as palavras, fazendo com que elas atingissem o espectador “fisicamente” e não conscientemente.

Dessa forma, na peça Eu Não (Not I), de 1972, a única personagem, uma boca sem rosto e sem corpo, que fala incessantemente fragmentos de frases, teria como objetivo provocar no espectador um grande incômodo por ser incapaz de entender o que é dito. Além disso, a forma ritmada como o texto deve ser proclamado e a escolha sonora das palavras dariam um aspecto musical à peça.

Para Rusche, muito da obsessão de Beckett em romper com a palavra se deve ao fato de que, no século XX, havia uma percepção generalizada da vanguarda artística de que a estória seria algo fascista, por apresentar uma visão pré-concebida e determinante de mundo, com começo, meio e fim. Beckett teria sido o mais radical dos dramaturgos ao romper com o conceito de estória e virar as costas à representação e ao realismo.

Similaridades entre Beckett e Feldman
De acordo com Bauer, o compositor que mais se aproximou da forma com que Beckett escrevia foi Morton Feldman. Para o compositor argentino, “há parentesco na maneira de construir as obras de ambos os artistas”.

Com o propósito de ilustrar essa similaridade, Bauer apresentou uma leitura de um trecho da peça Fim de jogo (Fin de partie), de 1957, em que as personagens travam um diálogo intrincado, cheio de interrupções por ambas as partes. Em seguida, mostrou um excerto da composição For John Cage, feita por Feldman em 1982, em que a sonoridade do dueto entre piano e violino é semelhante àquela do diálogo da peça de Beckett.

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