São Paulo (AUN - USP) - Promover uma maior integração entre os vários agentes envolvidos na gestão da bacia do Alto Tietê – prefeituras, grupos ambientais, representantes da sociedade civil, agricultores etc – através do uso da modelagem multiagente. A partir de seu objetivo primordial, já se podem notar a amplitude e a complexidade do projeto Negowat (Negotiation of Water Resources), que faz parte de uma linha específica de financiamento da Comunidade Européia para pesquisas sobre desenvolvimento periurbano em países do chamado Terceiro Mundo.
Os primeiros passos foram dados no instituto de pesquisa francês Cirad (Centro de Cooperação Internacional de Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento), que mantém convênio com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A coordenadora geral do projeto, Raphaèle Ducrot, veio ao Brasil como pesquisadora visitante do Cirad no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. Os modelos multiagentes consistem em uma nova linha de desenvolvimento na área de computação que trata de projetar sociedades virtuais. Baseada em linguagens de programação orientada-objeto – como Java e C++ –, tal modelagem permite representar diversos agentes do problema, cada um com autonomia de decisão. Visto que há diversos componentes para discutir a situação do Alto Tietê, a intenção do processo é simplificar a comunicação entre todos os participantes. O Cirad possui uma plataforma de multiagentes especializada na gestão de recursos naturais e que foi utilizada com sucesso em florestas de países africanos, como Senegal e Madagáscar. No entanto, Raphaèle sabe que o Alto Tietê representa um grande desafio: “jamais trabalhei com uma heterogeneidade tão grande em um mesmo espaço”. A pesquisadora, de fato, não está exagerando. O primeiro trecho do rio Tietê – seu alto curso – está situado, em sua maior parte, na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), uma área que abriga quase 18 milhões de pessoas e uma atividade industrial muito intensa. Devido a esses fatores, vários problemas vêm à tona: despejo de esgoto sem tratamento, ocupação irregular de mananciais, diminuição do espaço aproveitável para a agricultura etc. Tudo isso está aliado à dificuldade de lidar com a posição muitas vezes burocrática dos órgãos públicos responsáveis. O Negowat, portanto, não poderia deixar de contar com a ajuda de várias outras instituições brasileiras, constituindo uma espécie de “consórcio”. Além do IEA – que vai funcionar como um “gerenciador” do projeto –, há também a participação de vários especialistas de outras unidades da USP, pesquisadores da Unicamp, institutos ambientais nacionais e estrangeiros, ONGs e até um órgão de pesquisa ligado à Secretaria de Agricultura do Estado. Há, entretanto, um fator que está impedindo os primeiros trabalhos do Negowat: o financiamento do projeto. A Comunidade Européia deve entrar com 1,1 milhão de euros –aproximadamente 2,75 milhões de reais –, mas a negociação ainda não foi concluída. Raphaèle ainda espera conseguir cerca de 70 mil euros – 175 mil reais – vindos dos parceiros brasileiros. O custo relativamente alto do projeto não se deve tanto aos gastos com equipamentos para os trabalhos de campo, mas sim às despesas decorrentes do armazenamento de dados e do aperfeiçoamento da comunicação entre os diversos agentes.