São Paulo (AUN - USP) - Em tempos de crise econômica mundial, quebra de grandes empresas e aumento do desemprego nos países ricos, pode estar em curso uma mudança nas relações internacionais que irá beneficiar as nações emergentes, principalmente o Brasil. É o que afirma o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, Jacques Marcovitch. Em seminário realizado recentemente na Universidade, ele destacou que enquanto “demos um passo à frente, os outros deram passos para trás”.
De acordo com o ex-reitor da Universidade, o Brasil pode apontar caminhos para os países ricos de como crescer diante do cenário que o século XXI apresenta. Segundo ele, não adianta somente curar o mercado financeiro, mas também propor um modelo de desenvolvimento que priorize a questão ambiental e a pluralidade de opiniões nas decisões econômicas globais. Por exemplo, o presidente Lula, no encontro com o presidente dos EUA, Barack Obama, recentemente, tocou no delicado assunto do protecionismo, mostrando que não pretende ter uma postura submissa ao governo norte-americano, como os mexicanos.
No entanto, o Brasil terá que lidar com algumas contradições, como defender energias renováveis, ao mesmo tempo em que investe no pré-sal, e automatizar a produção de cana-de-açúcar, mesmo gerando desemprego. Para o professor, não se trata de escolher um caminho, mas abrir diversas possibilidades, pois “nem os EUA possuem uma matriz energética tão diversificada como a nossa”.
A reunião do Banco Interamericano de Desenvolvimento, que começa no próximo dia 27, dará a dimensão da gravidade da crise na América Latina. Em abril, o Brasil provavelmente será o porta-voz desses países no encontro do G20. Além da crise econômica, há a expectativa de que as mudanças climáticas sejam discutidas, já visando a reunião da Assembleia Geral da ONU pós-tratado de Kyoto, em dezembro.
O professor afirma que as tendências mundiais estão apontando para o crescimento populacional e urbano, que estimula as desigualdades socioeconômicas. De acordo com ele, esses contrastes não afetam somente um local, mas têm impactos globais, causando xenofobia e radicalismo. Já em termos financeiros, a variação dos preços e moedas, o endividamento, a deterioração das moedas, entre outros riscos, aumentam ainda mais a crise de desconfiança da população em seus governantes e dos próprios economistas em relação ao que fazer daqui para frente.
Marcovitch propõe algumas medidas a curto prazo para atenuar os impactos da crise econômica. A criação de programas de assistência social nos moldes do Bolsa Família seria importante para proteger as camadas mais pobres da inflação. Os governos deveriam reforçar o diálogo nas agências internacionais e defender a diminuição das barreiras tarifárias e dos subsídios no comércio exterior. No entanto, o professor afirma que poucos se lembram do problema climático, ou colocam-no em segundo plano, quando o ambiente deveria ser ainda mais comentado. Para ele, se é preciso propor um novo modelo de crescimento, este deve priorizar a ideia do crescimento sustentável.
O desafio para todos os países é conseguir retomar o crescimento. Os países ricos querem fazê-lo sem criar novas “bolhas”, enquanto os emergentes desejam aliar o aumento do PIB com o desenvolvimento humano. “É possível crescimento sem desenvolvimento, mas o inverso, não”. O ex-reitor da USP também diz que esta é a oportunidade para o mundo de entender que esses dois conceitos devem andar juntos, e isso passa obrigatoriamente pela utilização racional dos recursos naturais. Quanto mais prejudicado estiver o ambiente, mais transtornos teremos a respeito de saneamento básico, habitação, entre outros problemas.
Por isso, países como o Brasil, que investem em tecnologias limpas, têm conquistado o respeito e a admiração da comunidade internacional. Mas, para que essa troca de experiências aconteça, as nações devem estar abertas a um diálogo franco. “Cada pedaço do mundo está centrado em sua realidade, o que dificulta a resolução das crises”, afirma Marcovitch. Ao ajudar a consolidar o G20, o Brasil demonstra estar aproveitando a oportunidade de ser uma peça-chave na resolução nesse cenário.