São Paulo (AUN - USP) - O biólogo Márcio Bernardino da Silva realizou uma revisão sistemática da subfamília de opiliões chamada Goniosomatinae. Pouco conhecidos pelas pessoas leigas, os opiliões são uma Ordem da Classe dos Aracnídeos, dentre os representantes mais conhecidos dessa Classe estão os escorpiões, as aranhas e os ácaros. A pesquisa resultou na descoberta de 12 novas espécies (descritas por Márcio) além da supressão de outras descritas incorretamente. Todas elas foram divididas em 6 gêneros, um deles criado devido à revisão sistemática.
Os opiliões são animais cosmopolitas muito comuns em biomas de florestas abundantes como é o caso da Mata Atlântica. A subfamília estudada é endêmica da região que vai de Santa Catarina até o sul da Bahia. Ela é caracterizada por indivíduos de grande porte, com coloração diferenciada e vivem em cavernas, principalmente no Vale do Ribeira onde ficam os parques Intervales e Petar (Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira).
Embora as subfamílias estejam bem delimitadas do ponto de vista taxonômico, as 36 espécies viventes na região careciam de um estudo, pois estavam mal delimitadas inclusive entre os gêneros. Estudos recentes em diversas áreas, como biologia reprodutiva, citogenética e fauna e evolução em cavernas vinham demonstrando um alto nível de desordem na taxonomia do grupo, reflexo da situação sistemática de opiliões neotropicais em geral.
Um dos objetivos do trabalho foi de arrumar a taxonomia dos opiliões. A taxonomia é o sistema que permite arranjar as diversas espécies de forma que espécies com ancestral comum exclusivo (monofiléticos) apareçam dentro da mesma divisão (Filo, Classe, Ordem, Família, gênero até espécie). Um exemplo foi, sinominizar duas espécies (classificar como pertencentes à mesma, o que aparecia como duas espécies distintas na literatura). Para se fazer essa revisão sistemática, o pesquisador busca refazer a evolução real de cada espécie. Para isso existe uma metodologia chamada sistemática filogenética ou cladística. Com uma análise cladística é possível redesenhar como as espécies foram evoluindo e se diversificando. Partindo-se do pressuposto que todas essas espécies tem um ancestral comum exclusivo, porque tem muitos caracteres compartilhados entre elas. Também se parte do princípio que as especiações são feitas em disjunções, de duas em duas, até chegar nas atuais 36 espécies.
O trabalho de buscar essas disjunções é feito através de dados moleculares, ou (o mais comum) com o uso comparativo de dados morfológicos de cada animal para remontar a sua posição na história evolutiva. Existem diferenças na distribuição das espécies, nenhuma delas ocupa toda a área de SC até o sul BA. O padrão de distribuição das espécies de opilião demonstra um alto grau de endemismo, ou seja, ocupam uma área muito pequena comparados a vários outros organismos, que possuem uma área de distribuição muito maior. Foram propostas 10 áreas de endemismo.
"Então estudar os padrões de distribuição dessa espécie acaba sendo importante, por que, além de não se encontrar nenhum outro ser vivo com esse nível de endemismo, facilita estudar a biogeografia, porque se supõe que os padrões de disjunções no passado, ainda estão bem guardados nos padrões de distribuição atual dessa família" explica Márcio.
Como esses animais têm poucos mecanismos de dispersão, é possível, através do cruzamento de dados, estudar os padrões de disjunção da Mata Atlântica. Para isso existem outros tipos de metodologia, que, a partir de uma análise da árvore filogenética e da distribuição geográfica, descobrir onde e quando ocorreram eventos geográficos e geológicos (como o erguimento da Serra do Mar) que separaram a fauna do lugar ajudando à criar novas espécies. Esse estudo recebe o nome de biogeografia cladística.
Durante o trabalho, Márcio descobriu que das 44 espécies anteriormente descritas, apenas 24 realmente existiam, as demais estavam incorretamente descritas como espécies novas. A essas foram adicionadas 12 espécies novas. Um gênero foi criado especialmente para acomodar uma das espécies novas.
Diferente dos escorpiões e aranhas, que causam problemas de saúde pública, pois são animais peçonhentos, e os ácaros devido às alergias que causam e na pecuária por causa dos carrapatos, os opiliões são desconhecidos das pessoas leigas, até porque não constam do currículo do ensino médio. Eles podem ser facilmente confundidos com aranhas, mas, ao contrário dessas, não fazem teia nem tem veneno. Quando ameaçados soltam uma substância odorífera, com aroma parecido com solvente, que costuma causar irritação das mucosas. Pesquisas preliminares indicam que essa substância tem propriedades antibacteriológicas, além disso, pode induzir à formação de tumores.
Atualmente muitas pesquisas estão em curso, tratando com vários aspectos como: biologia evolutiva, reprodução, comportamento, etc, porque é relativamente fácil de encontrar esses animais. A revisão sistemática vai ajudar esses trabalhos.
A USP é uma das poucas instituições no Brasil onde se estuda fauna cavernícola. Entre os pesquisadores está o Professor Pedro Gnaspini, orientador de Márcio.