São Paulo (AUN - USP) - O arquiteto Jacques Herzog, mais conhecido pelo projeto do estádio olímpico de Pequim, apresentou aos alunos de arquitetura da Universidade de São Paulo (USP) algumas de suas obras, ressaltando a questão do potencial de integração que a arquitetura possui. Segundo ele, não dá para saber como a cidade vai evoluir, mas a arquitetura pode tentar antecipar a vida pública.
Em passagem ao Brasil devido à prevista construção do centro cultural no bairro da Luz, o suíço do renomado escritório de arquitetura Herzog & de Meuron elegeu cinco projetos para expor aos alunos com a intenção de lhes apresentar o modo como ele trabalha. A escolha foi feita pensando em sua diversidade, como uma resposta às diferenças do mundo. “Nós queremos ressaltar as diferenças, não o genérico”, explica o arquiteto.
Os projetos apresentados foram: o estádio olímpico de Pequim (conhecido como “Ninho de Pássaro”), a ampliação da Tate Modern, em Londres, uma torre multiuso em Paris, o Elbphilharmonie, em Hamburgo e o Centro Cultural na Luz, em São Paulo. Ele ainda comentou sobre o projeto de um museu em Guadalajara. O estádio olímpico é a única obra concluída.
Em sua apresentação, o arquiteto comentou como fazia para que o projeto desenhado integrasse o ambiente em que se localizasse e respeitasse sua herança histórica. Para cada um, ele mostrava mapas das cidades e imagens dos locais que entornariam a obra. “O objetivo é entender a cidade em seu DNA”, disse Herzog. Ele citou os efeitos e novos usos do estádio olímpico como exemplo disso. “Os chineses adotaram o estádio como deles. É algo que nós desenhamos, mas que se tornou uma verdadeira peça de arquitetura chinesa”, acredita ele.
Segundo ele, não dá para saber qual será a reação das pessoas ou a evolução da cidade, mas o arquiteto deve antecipá-las. Ele afirma que não há segredo para isso, senão o diálogo, a abertura e a ausência de background ideológico.
A questão da integração também é presente no desenho do centro cultural da Luz. O centro abrigará teatros e salas para diversos fins. O arquiteto contou que ele e de Meuron tentaram criar um projeto em que essas diferentes funções não fossem separadas, a fim de criar fricção entre as pessoas.
Críticas
O projeto do centro cultural na Luz vem sendo alvo de polêmica no que concerne à contratação da dupla de arquitetos suíços, feita sem concorrência ou concurso público. Também foi a respeito desse centro que se fizeram as maiores críticas ao arquiteto.
O arquiteto foi bastante questionado sobre como ele pensava que suas obras poderiam incluir pessoas de diferentes camadas e o que achava do processo de gentrificação, uma vez que uma das justificativas do governo para a obra é revitalizar o bairro.
O arquiteto respondeu que tem que se pensar no outro lado. Para ele, o processo é natural e há vezes em que não há outra possibilidade. “Não dá para congelar um lugar que não funciona mais”, explicou ele.
Ele afirmou que a arquitetura pode abrir ou fechar portas, e que ele acha que a nova arquitetura deve abri-las. Ainda criticou indiretamente o modo de pensar de alguns arquitetos, afirmando a forma é o mais fácil na arquitetura e que ele não faz seu trabalho por questões egocêntricas. Completou dizendo para os estudantes se livrarem de seu pensamento ideológico – e que essa era a maior contribuição que ele poderia dar.