São Paulo (AUN - USP) - Uma nova droga na luta contra o câncer, capaz de impedir a formação de vasos sangüíneos que alimentem o tumor, necrosando-o, foi descoberta em trabalho conjunto, a partir de informações do projeto Genoma, por pesquisadores do Laboratório de Pesquisa da Fundação Pró-Sangue de São Paulo, Laboratório de Oncologia Experimental da Faculdade de Medicina da USP, Instituto do Coração (Incor) e Departamento de Fisiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.
A nova substância, que ainda não tem um nome, é uma cadeia de nucleotídeos (oligonucleotídeo) que inibe a ação de algumas proteínas importantes para o processo de transcrição celular (transformação de DNA em RNA), principalmente a proteína Sp1, que controla diversos genes. Sem uma boa transcrição, a célula cancerígena perde sua capacidade de formar vasos sangüíneos (angiogênese) que garantam sua nutrição e a possibilidade de se estabelecer longe das células originais - processo conhecido como metástase - e morrem.
Nos testes, o oligonucleotídeo era injetado diretamente nos tumores de camundongos acometidos pelo melanoma, câncer de pele que, segundo o Inca (Instituto do Câncer), teve, no ano passado, 3.070 novos casos confirmados no Brasil e causou a morte de 1.085 pacientes. “O melanoma foi escolhido porque pode ser controlado experimentalmente, isto é, por ser mais palpável. Entretanto, o conceito que foi provado [impedir a formação dos vasos sangüíneos que alimentem o tumor] pode ser transportado para qualquer tipo de tumor”, afirma Roger Chammas, pesquisador do Laboratório de Oncologia Experimental da Faculdade de Medicina da USP.
Com o conceito provado, os próximos passos da pesquisa envolvem o desenvolvimento de outras formas de entrega da droga às células cancerígenas, que não sejam realizadas por meio de injeções e que distribuam o remédio uniformemente pelo tumor. “O primeiro problema a ser enfrentado é a administração homogênea e eficiente do oligonucleotídeo-armadilha pela massa tumoral. Depois disso, o próximo passo será o desenvolvimento de um tratamento sistêmico, para que um dia possamos ver esses conceitos sendo aplicados nas clínicas, no dia-a-dia”, diz Chammas.
A pesquisa, primeiro trabalho brasileiro que será publicado na revista inglesa Gene Therapy (volume 10, páginas 1992-1997, ano de 2003), do grupo Nature, este mês, já está disponível na internet, pelo site da revista: http://www.nature.com/gt.