São Paulo (AUN - USP) - A relação entre a estrutura genética materna e o desenvolvimento da fissura lábio-palatina, doença que prejudica a formação labial do feto, é tema de estudo realizado no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Mais conhecido como lábio leporino, o distúrbio é causado por um defeito congênito, e têm por origem não só fatores genéticos, mas também ambientais.
A formação dos genes depende do ácido fólico, vitamina do complexo B que atua diretamente em quaisquer processos de divisão celular e na produção de DNA. Sua importância para o desenvolvimento fetal concentra-se principalmente nos três primeiros meses de gestação. Mas para que chegue ao embrião, o ácido fólico deve ser ingerido e processado pelo organismo materno, o que depende da estrutura genética da mulher.
“A nossa hipótese é a de que a deficiência na metabolização do ácido fólico pela mãe é um dos fatores responsáveis pelo desenvolvimento do lábio leporino no feto, pois isso prejudica a constituição dos genes fetais, inclusive daqueles ligados à formação labial”, diz Maria Rita Passos Bueno, coordenadora do estudo. “Entretanto, não é correto dizer que a insuficiência metabólica é uma doença materna. A mãe apenas funcionaria como fator ambiental para o surgimento do lábio leporino”, afirma ela.
Cerca de 400 famílias com casos da doença foram envolvidas nesse estudo. De cada uma delas, foi coletado material genético dos pais e da criança afetada, com a permissão dos progenitores. Nos relatórios finais, as famílias eram orientadas sobre os riscos de um novo caso de lábio leporino em futura gravidez. “O aconselhamento genético é importante, pois se há um caso na família, é possível que isso se repita em outras gestações. Além disso, deve-se incentivar as mulheres ao consumo de ácido fólico antes e no início da gravidez”, afirma Maria Rita.
A doença já foi tema de outros trabalhos, mas pela primeira vez a relação mãe-feto é indicada para explicar sua origem. Desenvolvida desde 1995, a pesquisa conta com o apoio da Fapesp e a colaboração de pesquisadores de outras instituições. Em breve, os resultados serão divulgados na publicação The European Journal of Human Genetics, que representa a Sociedade Européia de Genética Humana.