ISSN 2359-5191

21/03/2001 - Ano: 34 - Edição Nº: 01 - Educação - Instituto de Psicologia
Psicóloga estuda o "morrer com dignidade"

São Paulo (AUN - USP) - Numa cultura que valoriza a vida em todos os seus detalhes, da fertilidade in vitro aos métodos de rejuvenescimento, pouco se ousa tocar num assunto que se transformou em mito: a morte. O historiador Gorer chegou a classificá-la como a nova pornografia ao travar a comparação com o tabu do sexo na Era Vitoriana.

Vislumbrando a necessidade de que haja, disseminado na sociedade, um discurso mais efetivo a respeito da morte e de se quebrar o tabu , a psicóloga Ingrid Esslinger escolheu o tema para ser a sua pesquisa de Doutorado na Faculdade de Psicologia da Universidade de São Paulo.

O título da tese, que tem o Hospital Universitário como fonte de pesquisa, é "O paciente, o médico e o cuidador, de quem é a vida afinal? Um estudo acerca do morrer com dignidade".

Na primeira fase da pesquisa de campo, após observar a relação triangular equipe de saúde-paciente-família por mais de 90 horas, a psicóloga chegou a uma das primeiras conclusões do estudo: o conceito de "morrer com dignidade" é altamente subjetivo e difere de acordo com a posição ocupada pelo indivíduo.

"O médico, devido à sua própria formação, tem extrema dificuldade em lidar com a morte, tomando-a como uma inimiga que deve ser vencida a todo custo", afirmou Ingrid. "Para ele, a morte de um paciente é vista como um fracasso pessoal".

Ela constatou que, na maioria das vezes, na ânsia de salvar a vida, o médico acaba passando por cima das vontades da família e do doente, embora legalmente este tenha direito total sobre si. Em caso de ausência de consciência ou sanidade mental, os parentes devem assumir as responsabilidades. Portanto, para a doutoranda, é condenável o fato de o paciente gravemente enfermo não poder ser o administrador de seus últimos dias de vida. "A morte faz parte da história das pessoas e elas devem ter o direito de escolher onde, como, quando e ao lado de quem querem falecer. Devem poder reger a orquestra, ser o autor do cenário".

Já para a equipe de enfermagem, morrer com dignidade seria ter conforto físico, psicológico e espiritual.Os profissionais dessa área tendem a se sobrecarregar, pois, além de propiciar os cuidados médicos, acabam se sentindo no dever de suprir também as necessidades psicológicas do doente. A frustração vem em seguida, pois, em sua grande maioria, os enfermeiros não estão preparados para dar este suporte ao paciente.

Embora a tese deva ser concluída apenas em 2003, Ingrid já anunciou uma das conclusões: é essencial que exista em qualquer hospital uma equipe de psicologia preparada para trabalhar com o paciente gravemente enfermo, com a família e, especialmente, com a equipe de saúde. Os psicólogos devem detectar as necessidades de cada grupo e auxiliar na administração de seus medos.

No Hospital Universitário da USP, assim como em grande parte dos hospitais, ainda não existe essa equipe. Ingrid contou o caso de uma enfermeira do HU que a procurou, bastante aflita, porque havia garantido a uma senhora que esta não morreria exatamente há momentos de a paciente não resistir e falecer. Isso gerou na profissional uma crise de consciência, seguida de angústia, provando que faltava-lhe a estabilidade e o treinamento psicológico necessários para lidar com a morte e o envolvimento pessoal com o doente.

Para os cuidadores, que geralmente são os familiares, a dignidade no falecimento seria o conforto e a possibilidade de poder estar com o ente querido. Os parentes geralmente enfrentam o fim da vida impugnados de dor, culpa e arrependimento. O luto começa assim que o prognóstico é fornecido pelo médico.

A estrutura emocional é fundamental para o bom envolvimento com o doente, que tem como sinônimos de dignidade poder estar com sua família e não sentir dor.

A segunda fase da pesquisa de Ingrid Esslinger consiste em perguntar aos grupos já mencionados em suas observações "O que seria, para você, morrer com dignidade?". De acordo com a psicóloga, membro do Laboratório de Estudos da Morte da Faculdade de Psicologia da USP, o objetivo é fazer as pessoas pensarem a respeito de seu próprio fim e de como gostariam de que este se desse. "Assim, as pessoas vão poder estar com o paciente na sua dor de forma mais inteira , ou seja, não racionalizando as emoções , mas também sem entrar na angústia dele", explicou a doutoranda. "Precisamos nos dar conta de que não somos eternos."

Leia também...
Agência Universitária de Notícias

ISSN 2359-5191

Universidade de São Paulo
Vice-Reitor: Vahan Agopyan
Escola de Comunicações e Artes
Departamento de Jornalismo e Editoração
Chefe Suplente: Ciro Marcondes Filho
Professores Responsáveis
Repórteres
Alunos do curso de Jornalismo da ECA/USP
Editora de Conteúdo
Web Designer
Contato: aun@usp.br