A indústria fonográfica ainda luta para se recuperar do choque causado pela chegada dos meios digitais de reprodução. Seguindo por caminhos oblíquos, as grandes empresas do ramo musical tentam encontrar o melhor meio de lucrar após o advento da internet. No I Ciclo de Debates Sonoridades Midiáticas, realizado na Escola de Comunicações e Artes (ECA/USP), os profissionais da indústria Pena Schmidt e Arthur Fitzgibbon debateram sobre as transformações do modelo de negócio da indústria fonográfica.
Ao fazer uma analogia com fluxo dos rios, Schmidt afirmou que antigamente cada artista era um afluente que desaguava no oceano do universo pop. Hoje, segundo ele, ocorre o processo contrário. O universo pop é o gerador dos diversos artistas que seguem rumos diferentes, de maior ou menor sucesso. As gravadoras não ocupam mais a função de selecionar o que o público deve ou não escutar. Agora o processo ocorre de forma independente e a indústria acompanha e não mais dita os caminhos da música. “O repertório básico das pessoas aumentou muito e isso é muito bom”, reforça Schimidt.
Lucros
Arthur Fitzgibbon lembra, ainda, que essa mudança de fluxos foi absolutamente traumática para a indústria fonográfica. “No começo foi pânico, tentava-se de tudo para manter o modelo antigo, que gerava muito mais lucro”. Ele afirma que, apesar dos artistas terem a opção de disponibilizar voluntariamente seu trabalho, a música ainda é um negócio. “O que acontece é que a internet democratizou a coisa de tal modo que hoje você escolhe se quer ou não ganhar dinheiro com seu trabalho”, ressalta.
A indústria fonográfica atingiu o ápice da lucratividade nos anos 1990, mas houve uma ruptura muito brusca na virada da década com popularização da internet. Em pouco tempo, os lucros caíram para valores equivalentes aos anteriores a 1980. Embora ainda estejamos em um período de adaptação, Pena Schimdt conta que hoje isso já começou a se estabilizar e a indústria está retomando o crescimento.
Consumo
Quanto ao consumidor, ambos concordaram que este permanece com os mesmos interesses, porém se vale de muito mais plataformas para adquirir música. O consumo, portanto, só aumenta. “Há formas de monetizar esse consumo, só que são diferentes das antigas. A gente só trocou de embalagem”, afirma Fitzggibon. Pena Schmidt lembrou ainda que o consumidor hoje “está na frente do computador com um celular na mão”. Segundo o produtor, isso diminui muito a atenção que ele destina ao áudio. Ouvir música é hoje uma atividade complementar, já que são raros os momentos em que nossa atenção está voltada exclusivamente para ela.
Fracasso brasileiro
Pena Schimidt ressaltou que o Brasil apresenta um enorme atraso na passagem para o digital, uma vez que o lucro com a venda pela internet ainda é irrelevante no país. Hoje quem mais realiza o trabalho de digitalização das obras dos artistas são os fãs, que o fazem por paixão e não para monetizar a atividade. Segundo ele, a lei de direitos autorais é uma barreira quase que intransponível para a comercialização digital das músicas. “Vender uma música sai muito caro, pois é preciso pedir autorização para basicamente todos os envolvidos na produção dela para pô-la na internet”, afirma.