Os choques de aglomerados não são acontecimentos raros, são inclusive o mecanismo mais comum responsável pela formação de muitos deles. Conjuntos de galáxias por volta de dez elevado a quatorze massas solares, ao se chocarem, dão origem ao fenômeno mais energético do Universo. Porém, acontecem em uma escala de tempo muito grande, termos de bilhões de anos, o que distribui essa energia.
Rubens Machado, pesquisador do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG), possui um projeto de estudos que tenta simular matematicamente o que teriam sido esses choques. Esses modelos permitem entender melhor o fenômeno como um acontecimento particular, tal como auxilia na tentativa de buscar padrões entre eles. Além de compreender melhor a composição as interações gravitacionais permitem medir a quantidade de matéria escura (matéria invisível aos meios convencionais de leitura) dos aglomerados. O método funciona por tentativa e erro, admitindo certos atributos do que poderia ser a interação é possível assumir os resultados que mais se assemelham com a realidade observada agora.
O primeiro aglomerado a ter sua formação simulada foi Abell 3376. O espectro demonstrava que os dois picos de emissão (galáxias mais brilhantes) não coincidiam com a emissão maior de Raio-X e um rastro entre eles, o que indicava uma possível colisão direta de aglomerados. Medições em outros comprimentos de onda demonstravam essas características de choque. Com leituras em rádio, por exemplo, percebe-se uma emissão difusa na periferia que indicava a reaceleração de elétrons, fruto da colisão.
A partir disso, Machado fixa certos parâmetros e analisa outros de forma variada em milhares de combinações para definir o que provavelmente aconteceu. Entre os parâmetros analisados estão principalmente a densidade do gás dos aglomerados, a relação de massa entre eles, a velocidade relativa inicial e a angulação do choque. O modelo final correspondia aos dados observacionais já especulados sobre a morfologia, as emissões e velocidade das galáxias. O modelo, no entanto, oferece uma combinação. É possível haver outras combinações que reproduzam o choque, destaca Machado.
No caso de Abell 3376 existe uma colisão direta, mas há simulações que destacam outras propriedades de colisões também não frontais. Machado também destaca que as observações estão sempre limitadas ao plano do céu, tem que se admitir que todos os corpos observados estão planos em relação a Terra, enquanto que as simulações permitem uma angulação.
A atribuição do supercomputador do laboratório de Astroinformática pelo IAG é de grande importância para o andamento desse projeto. O processamento que leva agora em torno de 12 horas para cada modelo, antes, em computadores normais com 64 processadores (64 bits) levava três meses de tempo efetivo, funcionando 24 horas durante todos os dias.