Pacientes que sofrem de imunodeficiência comum variável não conseguem desenvolver uma proteção imunológica para o seu organismo e demandam um tratamento contínuo. Apesar desse quadro, pesquisadores da Faculdade de Medicina (FM) da USP observaram que, clinicamente, o programa de vacinação comumente aplicado na população contribui para a diminuição dos casos de gripe H1N1 e gripe comum. Tradicionalmente, os pacientes que apresentam esse tipo de imunodeficiências não recebem quaisquer doses de vacinas.
O estudo desenvolvido na divisão de Alergia e Imunologia do Hospital das Clínicas (HC) da FM tentou por fim em uma discussão sobre a eficácia da vacinação em pessoas que apresentam imunodeficiências primárias. Para a pesquisadora Ana Karolina Barreto de Oliveira, não existe um consenso na Medicina de que a vacina realmente protege esses pacientes. “Há vários mecanismos imunológicos envolvidos e acreditava-se que, como esse grupo não apresentam respostas imunológicas eficazes, o processo de imunização por vacina não daria certo”.
A imunodeficiência comum variável é uma doença de caráter hereditário e rara, que atinge uma a cada 200 mil pessoas. Nela, o indivíduo possui múltiplos defeitos genéticos que não o permite desenvolver um sistema imunológico eficiente. As principais características dessa doença são infecções respiratórias de repetição, ou seja, o paciente apresenta uma quantidade de gripes, pneumonias e infecções respiratórias muito maior em um período de tempo do que os saudáveis. “Não existe cura, o que se opera é um tratamento para tentar amenizar os efeitos da doença. Nesse ponto, acreditamos que a vacina viria como um auxilio para o tratamento desses pacientes”, ressalta Ana Karolina.
Durante a pesquisa, um grupo de 47 pacientes imunodeficientes selecionados responderam um questionário que buscava estabelecer um quadro geral de sintomas. O teste apurava o número de infecções de vias aéreas superiores, tanto a gripe H1N1 como a gripe comum, em um intervalo de tempo de um ano. Depois da pesquisa, os participantes recebiam uma dose da vacina e, após 12 meses, realizavam novamente o teste.
Dos resultados obtidos nessa primeira avaliação, 80% dos indivíduos apresentaram significativa redução de diagnósticos de gripe. “Trata-se, nesse caso, de uma resposta clínica. Realizamos também uma análise laboratorial, a partir da coleta de sangue, feita antes e um ano depois da aplicação da vacina”, afirmou a pesquisadora. Em laboratório, verificou-se que a resposta de anticorpos não apresentou um aumento significativo.
Segundo Ana Karolina, o próximo passo é descobrir a origem dessa melhora no quadro clínico, uma vez que o perfil de imunização não se alterou. “Como a resposta imunológica não apresentou uma melhora, deslocamos o enfoque para a análise de perfil celular. A hipótese levantada é que o mecanismo de ação para a melhora clínica não seja com a produção de anticorpos, mas sim com o estimulo das células, havendo, então, uma resposta celular positiva”.