ISSN 2359-5191

30/09/2013 - Ano: 46 - Edição Nº: 73 - Saúde - Departamento de Fonoaudiologia, Fisioterapia e Terapia Ocupacional
Autistas conseguem desenvolver capacidades de interação e conversação
Pesquisa mostra que indivíduos com autismo, se estimulados de forma correta, conseguem interagir com outras pessoas
Crianças e adolescentes com autismo conseguem desenvolver habilidades de conversa e interação se estimuladas corretamente - Foto: Marcos Santos/ USP Imagens

Ao contrário do que se pensa, pessoas com autismo podem utilizar suas habilidades lingüísticas e interacionais no contato com o outro. É o que aponta um estudo da Faculdade de Medicina (FM) da USP. O projeto buscou analisar como os autistas usam as habilidades lingüísticas, ferramentas utilizadas para expressão, nas conversas, e observou como acontecem os diálogos desenvolvidos por eles.

A tese de doutorado da fonoaudióloga Liliane Perroud Miilher surgiu a partir de observação dela em que as pessoas generalizam os autistas como indivíduo sem nenhuma interação, sozinhos e sem nenhum tipo de comunicação ou vínculo afetivo. “Queria mostrar que essa ideia não é verdadeira. Ao menos isso não acontece quando nos disponibilizamos para o contato com as ferramentas apropriadas”.

Dez pacientes, entre crianças e adolescentes, foram selecionados para participarem do estudo a partir do atendimento no Laboratório de Investigação Fonoaudiológica nos Distúrbios do Espectro do Autismo da USP, e as terapeutas foram as interlocutoras. “Propus a filmagem de três situações diferentes, pois cada situação, em tese, demandaria diferentes habilidades que são reconhecidamente áreas comprometidas no autismo. São elas linguagem, cognição e socialização. Para cada situação, foi proposta uma ação lúdica que abrisse margem para a interação. Na linguagem, a proposta era criar uma história, na cognição montar uma estrutura a partir de material construtivo (Lego) e a socialização aconteceria com uma brincadeira de simulação de aniversário”.

As filmagens foram transcritas e a pesquisadora levantou itens observados nas interações. “Como as conversas utilizam um aparato que não é apenas lingüístico, afinal os olhares, postura corporal e entonação são extremamente importantes, pesquisei itens de cunho mais pragmático, relacionados à funcionalidade, e itens sintático-semânticos, que trabalha a seleção e ordem de palavras expressas”.  

Após as análises os resultados mostraram que, nos itens pragmáticos, não houve diferença entre as situações propostas (Livro, Lego e Aniversário). “Isso mostrou que mais importante que o contexto lúdico são as oportunidades de trocas recíprocas”. Com relação à análise dos itens sintático-semânticos, houve diferença no uso entre as situações propostas. “Esse ponto é interessante, pois revela que os sujeitos pesquisados utilizam as habilidades e conteúdo lingüístico de forma mais dependente do contexto”, explica Liliane. Segundo ela, por mais que os resultados nos dois âmbitos foram diferentes, os dados indicam que as pessoas têm um substrato funcional de linguagem e utilizam as habilidades de forma e conteúdo para construir as interações.

Desafio social

Liliane ressalta que uma das questões que mais lhe interessa é tentar entender os quadros do espectro do autismo para além das inabilidades. “As descrições são sempre dos prejuízos qualitativos, das dificuldades, das inabilidades. Sim, elas existem, mas na pesquisa quis investigar as possibilidades”.

Ela comenta que, apesar das marcantes dificuldades de comunicação, cognição e socialização, pessoas com autismo são, ainda assim, interlocutoras. “Acredito que para além das implicações clínicas do estudo, em termos sociais a pesquisa nos mostra que mesmo pessoas que são marcadamente vistas como isoladas podem desenvolver estratégias e modos de interagir. Contudo, as interações recebem este nome pois elas prescindem de dois atores em ação recíproca”,diz. “Sem isso nós teremos duas pessoas que falam, mas não necessariamente que se falam. Portanto, cada pessoa que interage com outra pessoa deve lembrar-se que ela também é responsável pelo sucesso da comunicação, e nesse ponto o estudo vigora como uma lição social”.

 

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