ISSN 2359-5191

07/10/2013 - Ano: 46 - Edição Nº: 77 - Saúde - Escola de Enfermagem
Depressão pós-parto atinge mãe de maneira profunda

A depressão pós-parto (DPP) faz com que a mulher enfrente uma maternidade diferente da idealizada pela sociedade e pode promover um desarranjo profundo, difícil de ser revertido, em duas peças fundamentais: sua própria identidade e seu papel como mãe. É o que conclui a pesquisa da Escola de Enfermagem (EE) da USP A trajetória de mulheres brasileiras na depressão pós-parto: o desafio de (re)montar o quebra-cabeça.

A bagagem de pesquisador e a prática clínica em saúde mental levou o enfermeiro Hudson Pires de Oliveira Santos Junior a perceber que pouco se conhece sobre a experiência de mulheres brasileiras com a depressão pós-parto, bem como suas relações com os bebês, e que quase não há estratégias de assistência disponíveis para elas no contexto nacional. Motivado por essa falta de protocolos assistenciais e de pesquisas que auxiliem no reconhecimento da doença, Santos realizou o estudo, financiado pela Fapesp, em um instituto de psiquiatria de São Paulo. Foram entrevistadas 15 mulheres entre maio de 2011 e janeiro de 2012 com o transtorno e 9 familiares por elas indicados.

Para Santos a maior dificuldade encontrada na execução da pesquisa foi exatamente identificar as mulheres que sofriam com depressão pós-parto. De acordo com o enfermeiro, isso se deve aos poucos profissionais capacitados para reconhecer a doença e ao preconceito destinado aos indivíduos com problemas de saúde mental, que cria impedimentos para a própria aceitação do transtorno.

O pesquisador afirma que “pensamentos ruins”, termo utilizado pelas mães para falar sobre a vontade de machucar as crianças, foram descritos com muita vivacidade durante as entrevistas e são pontos de grande tensão na experiência da maternidade. Como agentes de agressão contra os bebês, as mulheres mencionaram duas possibilidades: indivíduos externos ou elas mesmas. “Essa referência não significa que elas de fato vão machucar os filhos, mas pode indicar a necessidade de intervenção clínica na relação da mãe com o bebê”, diz Santos.
Em resposta a esses pensamentos, as mulheres descreveram quatro formas diferentes de preservar o cuidado maternal: transferência total  ou parcial do cuidado da criança para um familiar, ver-se isolada no cuidado por não ter apoio familiar e superproteger a criança.

A pesquisa é importante, pois, a partir dela, profissionais de saúde podem começar a compreender a forma com que as mulheres se referem à depressão pós-parto, os fatores que interferem nessa experiência e, assim, identificar o transtorno em sua fase inicial. No caso de mulheres que desenvolvem um processo de cuidado intenso da criança, por exemplo, pode haver mais dificuldade para perceber a depressão: “Isso porque o imaginário da maternidade é que a mãe seja capaz de cuidar da criança. Se ela consegue fazer isso, ela está bem, o que não é verdade quando há um cuidado materno obsessivo.” Santos também chama atenção para o fato de que muitas vezes os profissionais de saúde se baseiam na narrativa de outros membros da família para tomar suas decisões clínicas, o que deve ser feito com cuidado, pois em inúmeros casos os parentes não entendem o real estado da mulher e enxergam sua condição como “frescura”.

 (Re)montar o quebra-cabeça

Assim como as peças que se desarranjam em um complexo quebra-cabeça podem não voltar ao normal, ainda que a depressão pós-parto seja identificada há o risco das peças desarranjadas na vida da mulher não retornarem ao formato original. “A experiência angustiante de não conseguir responder às expectativas do papel materno abriu espaço para um conflito que modificou a forma como as mulheres compreendiam a si mesmas e exerciam a maternidade”, diz Santos. Desse modo, as mães tiveram que se adaptar a um novo normal, em que a percepção sobre a maternidade, identidade pessoal e relacionamentos foram negativamente afetados.

Santos afirma que não há no presente momento uma estratégia precisa para remontar o quebra-cabeça. No Brasil, tratamentos geralmente disponíveis são o uso de medicamentos ou o acompanhamento terapêutico. Segundo o pesquisador, particularmente no nosso contexto e nos demais países latino-americanos, é necessário avançar na compreensão do transtorno e identificar quais características culturais exercem influência na experiência e respostas das mulheres. “Pesquisadores, profissionais e políticos precisam dedicar mais tempo e investimento para identificar diferentes formas de tratamentos e apoio social que sejam convenientes e eficazes em nosso sistema de saúde. Se as mulheres forem diagnosticadas e tratadas precocemente, elas tem mais chances de evitar o prolongado sofrimento psíquico.”

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