Elementos trabalhados pelo aspecto da oralidade, como as cantigas de roda e adivinhas, devem ter sua capacidade de formar o indivíduo em idade escolar cada vez mais priorizada no processo de ensino. Atualmente, a educação se encontra permeada pela lógica mercadológica e a leitura, em seus múltiplos aspectos, é menos valorizada que a escrita.
A importância das narrativas históricas – que apresentam rimas e palavras desafiadoras, por exemplo – e da oralidade lúdico-poética presentes em grande parte no universo da criança dentro ou fora do ambiente escolar foram objeto de estudo da pesquisadora Laura Battaglia, da Faculdade de Educação da USP (FE). Os resultados integraram a tese Das memórias narrativas às representações míticas: arte e desafios na alfabetização.
Laura acompanhou por dois anos o desempenho de crianças de 6 a 8 anos na Escola de Aplicação da FE e pôde notar que narrativas consistentes são de extrema importância para os alunos. Trazer a heterogeneidade dos conhecimentos que transitam entre a escola e a família para a sala de aula é uma boa opção em vez de apenas realizar leituras do material didático oferecido para a escola, que apresenta elementos distantes do cotidiano dos alunos. Um dos aspectos percebidos pela pesquisadora foi que o interesse das crianças é maior quando o professor conta histórias, inventa performances e propõe intertextualidade.
No Brasil, aponta Laura, o processo de alfabetização é direcionado principalmente à escrita, deixando a leitura para segundo plano. Se o ato de ler – visto como interpretar textos apresentados das mais diversas formas – for utilizado para resgatar elementos da memória dos alunos, facilita-se o processo de alfabetização. A aquisição da grafia acontece, então, com uma fluidez maior a partir daí.
A pesquisadora critica o atual modelo de alfabetização porque ele adota os elementos pragmáticos da vida cotidiana como elemento alfabetizador, como placas de rua, manchetes de jornais, receitas de bolo, partindo do princípio de que isso está presente no cotidiano da criança. Estão, afirma Laura. Mas este não é o universo infantil, que de fato deveria orientar o processo de educação. “Quando você traz esse universo pragmático sem nenhum relevo poético para a alfabetização, você tende a desestimular o sujeito a se interessar pelo processo de leitura e escrita”, aponta.