São Paulo (AUN - USP) - A CUT (Central Única dos Trabalhadores) é constantemente atacada por apresentar uma excessiva participação de servidores públicos em suas lutas sindicais. Alega-se que a Central tenha se tornado refém dos trabalhadores desse setor. A esse respeito, o professor Sidney Jard da Silva, mestre em Ciência Política formado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da USP, defende que o aumento na participação seria normal e até beneficente para a sociedade como um todo.
Ele situa essa realidade no cenário mundial, sob o ponto de vista da política e do sindicalismo. Conclui, em sua dissertação de mestrado Companheiros servidores: poder político e interesses econômicos do sindicalismo do setor público na CUT, que a expansão do associativismo sindical no setor público se trata de uma tendência global, o que erroneamente tem sido rechaçado em debates políticos, que muitas vezes a consideram uma anomalia do sindicalismo cutista. Seu trabalho recebeu o prêmio “Lourival Gomes Machado”, melhor dissertação de mestrado do ano de 2000, e deverá ser publicado ainda este ano.
Tal aumento da ação de servidores públicos, para o professor Jard, ainda no âmbito mundial, teria colocado novos impasses às organizações de trabalhadores, já que estabeleceu a emergência de novas lideranças, novas táticas, maior fragmentação entre setores e disputa pela organização das instituições. Foi importante, no entanto, para o enfrentamento da nova realidade política de diversos países, entre eles o Brasil, que passam por processos de ajuste estrutural e reforma do Estado. São políticas que acabam por quebrar com relações de trabalho tradicionais do setor público e promover um encolhimento da atuação estatal, de modo que demandam uma discussão maior não só dos servidores diretamente afetados como de toda a população. Nesse ponto, portanto, a participação dos servidores na CUT seria crucial para resoluções políticas que abarcassem a todos os interesses.
O professor acrescenta que a CUT realmente sofre de uma fragilidade na estratégia de associação das reivindicações específicas do setor público às demandas dos demais trabalhadores, mas justifica que a debilidade se deve à pouca disposição por parte do Governo em negociar as questões mais específicas com as entidades que representam os servidores públicos. Estes acabam sendo levados a estabelecer o debate nas instâncias mais abrangentes, no caso a CUT, sendo então criticados por isso. Segundo Jard, todavia, isso seria proveitoso se houvesse uma maior conscientização de que os problemas desses servidores referentes à reforma do Estado estão diretamente relacionados à qualidade de serviços prestados por ele.
O Governo, então, acabaria por diluir a confluência de interesses sindicais e, ao mesmo tempo, de acordo com Jard, dificultar as negociações entre Estado e funcionários, alegando que trabalhadores estariam unidos numa estratégia intransigente, podendo, portanto, ser desconsiderada. Foi o que ocorreu no caso da reforma da previdência, abordada pela dissertação, à qual diversos setores do funcionalismo público mostraram-se favoráveis, mas o governo os considerou como um bloco uno de resistência às negociações.