ISSN 2359-5191

15/04/2015 - Ano: 48 - Edição Nº: 21 - Educação - Faculdade de Educação
Melhora na educação infantil passa por estruturação de toda a equipe
Bons resultados em sala de aula requerem uma equipe organizada e entrosada, incluindo diretores, coordenadores e órgãos públicos
Equipe pedagógica reunida para estudo e discussão de práticas. Foto: Mônica Pinazza

Muito se fala sobre o papel dos professores no aprimoramento da educação. Contudo, é importante lembrar que as práticas escolares são resultado também do trabalho de uma rede de pessoas, como diretores, coordenadores, supervisores e até mesmo das Secretarias Municipais. São estes profissionais que atuarão nos bastidores, dando estrutura para que os professores possam desenvolver seu papel. A organização de toda essa equipe pedagógica é um dos elementos estudados pela professora Monica Apezzato Pinazza, docente da Faculdade de Educação da USP (FEUSP), em sua tese Formação de profissionais da educação infantil em contextos integrados.

Durante cinco anos, de 2005 e 2009, Mônica analisou o cotidiano e os processos de um CEI – Centro de Educação Infantil, popularmente conhecido como creche – da Zona Leste de São Paulo, paralelamente ao desenvolvimento de um trabalho de formação com os educadores locais. A ideia surgiu como reflexo do grupo de pesquisa Contextos Integrados de Educação Infantil, que ela coordena na Faculdade de Educação desde 2001. Dentro dele, existem mais dois grupos de estudo: um para a formação de professores, e outro para a formação de gestores (como coordenadores e diretores). Tais grupos contam com a participação de vários educadores da Rede Municipal de Ensino, e foi nesse contexto que a professora da FEUSP recebeu o convite, por parte da própria equipe do CEI da Zona Leste, para trabalhar no aperfeiçoamento e formação de seu pessoal.

Com base no conceito de investigação-ação, no qual o trabalho se dá através da vivência no próprio meio onde se pratica a ação, a professora da FEUSP passou todo o tempo da pesquisa atuando em conjunto com os profissionais que trabalhavam na creche. Juntos, Mônica e os funcionários do local formaram grupos para analisar os procedimentos do CEI e pensar em possibilidades de aprimorar tais práticas. “Basicamente, estudei como é possível constituir ambientes de formação que estejam interconectados para otimizar as possibilidades de formação”, afirma ela. Ao longo do projeto, os grupos trabalharam, por exemplo, na reorganização do berçário, que passou de um dormitório carregado de berços a um local que estimulava as experiências sensoriais e sociais das crianças.

Mas como se constrói esse ambiente ideal de formação? Embora cada local tenha suas particularidades, a pesquisadora afirma que, com base no que foi observado, uma das principais conclusões às quais chegou é a importância da organização da equipe como um todo para o aperfeiçoamento das práticas. Nesse contexto, ela ressalta sobretudo o papel dos gestores, tanto no CEI em questão como em qualquer ambiente de educação infantil. Para ela, a figura desses profissionais é fundamental para que o trabalho de toda a equipe pedagógica funcione e se aprimore. “A qualidade do que se faz com as crianças está na mão do professor, mas é da figura da direção e da coordenação a responsabilidade de mobilizar a equipe para a qualificação dessas práticas”, argumenta ela. “Porque muitas vezes, os professores não conseguem fazer coisas sem o suporte de uma liderança”.

Já que uma das principais finalidades do projeto era justamente emancipar os profissionais do CEI para que estes pudessem continuar o trabalho após a saída da pesquisadora, Mônica conta que buscou trabalhar a função de liderança dos gestores. “Estive muito interessada em como fortalecer a figura do diretor e da coordenadora, porque um dia eu iria embora e eles tinham que continuar fortalecidos como equipe”, explica. Ela também afirma que seu papel era apenas de supervisão, e que os participantes do grupo tinham total autonomia para sugerir temas e trazer para os encontros sua vivência do dia a dia. “É uma reunião em que as pessoas estão envolvidas, não uma em que elas estão lendo um texto, ou em que só uma pessoa fala e as outras ouvem”, diz.

Contudo, a pesquisadora ressalta que mesmo os gestores precisam de auxílio de instâncias superiores, como das Secretarias Municipais de Educação. Algo que, segundo ela, nem sempre acontece. “Quando era para apresentar uma coisa legal que acontecia, a diretoria regional de educação ia lá e pegava os trabalhos da comunidade. Mas quando a equipe precisava de respaldo e suporte, isso não ocorria”, lamenta.  


Relação teoria e prática

Sobre a importância da imersão proporcionada pelo modelo de pesquisa em contextos integrados, a professora considera importante tal conexão entre a abstração teórica e a prática. “É preciso compreender como a teoria se mostra quando faz um diálogo com a realidade. Afinal, o objeto de estudo da pedagogia está nos ambientes educativos”. Tomando como exemplo o trabalho com os educadores do CEI, ela afirma que uma das melhores formas de fazer com que as pessoas percebam seus erros é mostrando-os na prática. “Quando o que é proposto vai começar a fazer sentido para as pessoas? Quando se discutir justamente aquilo que esta acontecendo. É improvável que elas percebam seus erros se eu simplesmente chegar lá e disser ‘não é assim que faz’”, argumenta.

Entretanto, Mônica aponta que esse aspecto ainda precisa ser melhorado na preparação dos profissionais da educação infantil, sobretudo na formação continuada (aquela realizada ao longo da carreira). Segundo ela, hoje os métodos de ensino não levam em conta as experiências anteriores de cada profissional. “As pessoas são convidadas a se verem como papéis em branco, comos se elas já não tivessem um certo conhecimento naquilo que fazem”, comenta. “Mas o fato é que você se sente melhor numa aula que relaciona o conteúdo com uma experiência prévia que você teve, porque só então você consegue, de fato, compreender”.

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