ISSN 2359-5191

04/08/2015 - Ano: 48 - Edição Nº: 68 - Educação - Faculdade de Educação
“Pequenos publicitários” são tema de estudo de pesquisadora
Textos argumentativos infantis têm estilo próprio e se valem de estratégias semelhantes às de propagandas comerciais

A pesquisadora Renata Costa, em sua dissertação de mestrado pela Faculdade de Educação da USP, estudou a persuasão na escrita de crianças e a forma como elas se tornam escritores proficientes.

Como aponta Renata, os gêneros textuais considerados mais complexos, como os argumentativos, são trabalhados apenas nos anos finais do ensino fundamental. “Antes disso, somente se ensinam aqueles ditos simples, como parlendas, contos e listas.”

No entanto, durante seus anos como professora, Renata percebeu que as crianças eram capazes de realizar mais do que aquilo que se esperava, institucionalmente falando, delas. Decidiu, então, analisar os registros de seus alunos e identificar se havia (e quais seriam os) traços argumentativos em suas produções.

Segundo a pesquisadora, um dos grandes problemas da educação linguística é a “ficção textual implícita no texto escolar”. Ela explica: “Normalmente, o texto escrito na escola não é nada mais que uma tarefa: o aluno escreve para que o professor o avalie e lhe dê uma nota.”

E continua: “A importância de se valorizar as ações praticadas com a linguagem está no fato de mostrar ao aluno que seu texto tem determinados interlocutores e objetivos, não compactuar com a ideia geral de que o texto é escrito para o professor, em função de uma nota.”

Em sua análise, Renata percebeu que os textos produzidos pelas crianças excediam o uso da função conativa da linguagem para a adesão do leitor. Muitos deles chegaram ao uso de sua função poética, a fim de tocar quem os lesse.

A professora comenta que se surpreendeu com os resultados: “Esperava que ao final do período as crianças argumentassem com alguma eficiência. O fato de eles terem desenvolvido estratégias persuasivas (ou seja, convencimento pela  via da emoção e não apenas pela racionalidade) me surpreendeu.”

Também a impressionaram aspectos como a semelhança entre as estratégias utilizadas pelos pequenos e aquelas observadas em campanhas publicitárias, além do fato de que “era possível selecionar um dos textos do corpus, e determinar seu autor, mesmo sem ler a identificação. Me pareceu que cada criança tinha uma maneira singular de produzir seus textos, algo próximo do que a literatura chama de estilo.”

Renata justifica sua dissertação dizendo que ela se alinha a seu posicionamento profissional e político: “Não podemos privar as crianças dos anos iniciais do ensino fundamental de se tornarem escritores competentes.”

Segundo ela, porque cada um aprende de uma maneira e a um tempo, não se deve descartar nenhuma possibilidade de ensino: “Na verdade, considero que tornar-se um pequeno publicitário pressupõe escrever com proficiência. Isso quer dizer que trabalhar com a persuasão pode ser um dos caminhos para que uma criança torne-se um escritor proficiente.”

A pesquisadora comentou, ainda, um dos trabalhos realizados pelas crianças, apresentado abaixo. Ao lado, estão transcritos os períodos escritos por Fernanda, de nove anos e seis meses de idade.




“A informante tem uma sacada que, a meu ver, é genial.  Abaixo do texto, a menina fez um desenho que, provavelmente, representa um anjo, o qual tem um balão de fala com a inscrição “Por favor???”. Minha hipótese é a de que o balão de fala representa o pedido do locutor do texto, de maneira que Fernanda fez uma tentativa de relacionar a própria imagem com a de um anjo. Ressalte-se que o “anjo” foi desenhado calçado com a sandália de saltinho, pedida como presente de Natal. Dizer que uma pessoa é anjo significa que a mesma é bondosa, virtuosa ou inocente. Assim, pode-se dizer que Fernanda pode ter feito uma investida para mostrar-se merecedora de um presente, afinal, em sua perspectiva, possuía qualidades comparáveis com as de um ser celestial.”



A importância de se explorarem, desde cedo, diferentes formas de produção textual e, de uma forma geral, de expressão, se deve também ao fato de que, nos mais novos, o recalcamento e a censura do pensamento inconsciente de que fala Freud ainda não se deu completamente.

Logo, é preciso que se estimule ao máximo o desenvolvimento de um “escritor criativo”, que, ainda segundo Freud, é aquele que “faz o mesmo que a criança que brinca.” Isso porque “cria um mundo de fantasia que ele leva muito a sério, isto é, no qual investe uma grande quantidade de emoção, enquanto mantém uma separação nítida entre o mesmo e a realidade.”

Renata explica que o indivíduo que sofreu o mencionado processo de normatização “escreve com o foco nas convenções e uma preocupação extrema com o leitor, no sentido de: ‘o que vão pensar de mim se eu escrever isso?’” Por conseguinte, é fundamental que se combata essa progressão, permitindo que o aluno se manifeste para além de regras ou “medo de passar vergonha”.

A pesquisadora alerta que mudar essa situação não é facil, porque, para fazê-lo, é necessário ir de encontro a um sistema de educação que já está consolidado. Apesar disso, atesta: “Contudo, se conseguíssemos fazê-lo, os ganhos para os alunos seriam enormes: a oportunidade de trabalhar sobre o próprio escrito e ver o que há de mais singular em si e calcular o suposto leitor de seu texto, e a possibilidade de trabalhar sobre seu escrito e deixar que a escrita trabalhe sobre ele (trabalho de escrita, conceito de Riolfi).”

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