Contar histórias é uma prática recorrente desde tempos imemoriais. Graças a esse costume, contos, lendas e mitos de séculos atrás puderam chegar até nós. Em sua tese pela Faculdade de Educação da USP, a pesquisadora Fabiana Rubira estudou a figura do contador de histórias e as narrativas da tradição oral, e percebeu a importância desses elementos para a formação do ser humano.
A pesquisadora atua como contadora de histórias desde 2001 e, ao longo dessa trajetória, passou a refletir sobre como as narrativas mexiam com seus ouvintes. “Quando trabalhava as históriascom os alunos, via o quanto isso mobilizava, fazia as pessoas sorrirem, chorarem”, lembra. Assim, Fabiana constatou como a narração permite uma maior proximidade com o receptor.
Quando a história passa uma mensagem
Segundo Fabiana, o mito do contador de histórias é representado na ficção por meio de personagens como Sherazade (do conto árabe As mil e uma Noites), Ariadne (filha do rei Minos, na lenda grega do Minotauro) e Inanna (personagem de um mito sumério). Em todos essas lendas, as contadoras conseguiram passar sua mensagem através da história, mas sem transformá-la numa ferramenta moralizante. Como exemplo, a pesquisadora cita Sherazade, que decidiu contar histórias ao sultão Schahriar na tentativa de fazê-lo parar de matar todas as jovens com as quais se deitava. “Sherazade, como mulher instruída que era, arma um plano para chegar nesse sultão e reumanizá-lo, para que ele voltasse a ser o sultão bom e justo que era”, explica. “Ela não chega lá e vai contar uma história com moral, do tipo ‘não mate as mulheres porque isso é errado’. Se ela tivesse contado essa história, teria morrido, porque ninguém bota o dedo no nariz de um sultão e diz o que ele tem de fazer”.
Assim, as narrativas seriam uma forma de propor reflexões, mas não de maneira impositiva. “Ninguém gosta de ouvir que está errado, mas todo mundo quer ouvir. Então, é o como que importa, e esse como sempre foram as histórias”, argumenta Fabiana. A pesquisadora ressalta que o poder das histórias pode ser encontrado, inclusive, em algumas doutrinas religiosas. Na Bíblia, por exemplo, Jesus Cristo pregava a seus seguidores por meio de parábolas, fazendo analogias à vida real. “Nas histórias, a palavra sai do coração para atingir o coração do outro”, diz. “Quando a mensagem sai pela boca racionalizada, você acaba fazendo o outro também racionalizar, dizendo ‘ah pera lá, ta querendo dar uma de sábio pra cima de mim’. Mas em nenhum momento a Sherazade faz isso”.
Narrativas em sala de aula
Fabiana também trabalha com formação de professores em cursos de graduação, e usa as histórias não só para se aproximar de seus alunos, como para auxiliá-los em sua prática profissional. Na mesma linha, a pesquisadora passou a atuar no Lab_Arte (Laboratório Experimental de Arte-Educação & Cultura), um projeto existente na FEUSP que desenvolve trabalhos de vivência e experimentação, voltados a alunos de Licenciatura ou a qualquer pessoa interessada em participar (seja da USP ou não). O laboratório é coordenado pelo professor Marcos Ferreira dos Santos, e contém hoje 15 núcleos como música, artes visuais, teatro e, claro, narração de histórias — núcleo liderado por Fabiana desde 2009.
Fabiana Rubira é contadora de histórias desde 2001. Na foto, pesquisadora apresenta a sede do Lab_Arte, na FE. Créditos: Carolina Oliveira
Embora o hábito de contar histórias ainda seja comum nas etapas infantis da educação (tanto na escola quanto em casa), Fabiana afirma que, muitas vezes, os professores só se utilizam da prática para melhorar o comportamento dos alunos — que tendem a se aquietar durante a exposição das narrativas. Contudo, para a pesquisadora, as histórias não só auxiliam na relação entre alunos e professores, como proporcionam uma experiênica pedagógica humanizadora. “As histórias falam direto à alma, e têm um efeito educativo que vai muito além do que as pessoas podem acreditar ou acreditam sobre o que é educação”, diz. “Educação vem de conduzir para fora [do latim educare], mas o que a gente acaba fazendo é o contrário, empanturrando as pessoas de informação. As histórias deixam as coisas mais verdadeiras, mais próprias de virem à tona”.
Contos tradicionais como alvo de preconceito
Fabiana aponta que muitas histórias antigas vêm sendo acusadas de reforçarem estereótipos, sempre com belos príncipes, princesas e finais felizes. “As pessoas julgam os contos de fadas por valores externos a eles, sociais, preconceituosos, e não conseguem ver o que há em sua essência”, diz. A pesquisadora argumenta que os contos tradicionais não são ilusórios, mas sim, um reflexo da beleza que existe em cada pessoa. “A princesa mítica é o símbolo da nossa alma. Então por que toda princesa tem de ser bonita? Porque ela é a sua alma, e a sua alma é bonita”, afirma. “O felizes para sempre dos contos de fada acontece dentro de você, e não aqui fora”.
Para a professora, cada personagem representa um traço de nossa humanidade, uma vez que tanto a maldade da bruxa quanto a beleza da princesa, ou o ímpeto do príncipe, fazem parte do que somos. “Todos esses elementos estão em nós”, ressalta.
Outro ponto levantado por Fabiana é a importância das histórias antigas como patrimônio da humanidade, resultado de uma construção de centenas de gerações — e não de um único autor. “A história vai viajando, cruzando todos os continentes do mundo, passando através das eras, e me conecta com todo mundo que veio antes de mim e com todo mundo que virá depois de mim”, diz a pesquisadora. “Se descobrir humano, parte de uma cultura que tem um passado e um futuro, é o primeiro passo para trabalhar com qualquer outro conhecimento”, completa.