Em janeiro desse ano, o autor Aguinaldo Silva defendeu o que ele denominou como uma “língua clara, livre de censura” ao falar de sua personagem Maria Martha (interpretada pela atriz Lília Cabral na folhetim Império): "As frases de Marta são um santo remédio contra a doença do politicamente correto, que ameaça tornar a nossa dramaturgia televisiva uma chatice”. Marcelo Peroni, diretor de uma adaptação teatral de Marcelo, marmelo, martelo e outras histórias, livro de Ruth Rocha, afirmou que a obra estabelece um diálogo com as crianças da geração atual por trazer a essência infantil, “sem a chatice do politicamente correto”. Na abertura da Feira do Livro de Frankfurt, no dia 13/10, o escritor indo-britânico Salman Rushdie condenou “a repressão do politicamente correto”. E, pasme, o anúncio do fim de mulheres nuas na revista Playboy também chegou a ser relacionado com essa visão. Quando o humor entra na roda então, aparecem desentendimentos ainda mais acalorados. Mas, afinal, o ponto gira em torno de uma nova forma de censura ou deve ser encarado como um sinal de respeito e educação? Discussões públicas e debates acadêmicos representam meios nos quais esse questionamento floresce. Em seu mestrado, Nara Lya Cabral trabalha com a categoria do politicamente correto e os sentidos que emergem no jornalismo e, sem ser taxativa, amplia a compreensão sobre o tema.
Ligado aos limites da liberdade de expressão, o politicamente correto diz respeito às fronteiras entre “o direito de dizer, de os agentes se expressarem, e, por outro lado, dos indivíduos não serem ofendidos”, pontua Nara. Partindo de um levantamento de matérias da imprensa, utilizando o acervo online da Folha de S. Paulo, por ser um periódico de expressiva circulação, a palavra-chave “politicamente correto” foi buscada. “O interesse era ver como esse conceito era usado”, explica a jornalista, que queria demarcar o que o jornal agrupava na categoria analisada. Salienta o fato das páginas jornalísticas fazerem “um arranjo dos discursos circulantes”, já que nelas estão inseridas, além de uma posição editorial, as opiniões de vários agentes sociais, expressas em notícias e entrevistas. O recorte temporal do estudo é de 1991 a 2014 e, durante o período selecionado, percebe-se uma alteração na maneira como o politicamente correto é empregado.
Página do acervo online da Folha de S. Paulo. | Fonte da imagem: arquivinho.com.
1991: boom
O marco inicial da investigação, 1991, representa o ano no qual aconteceu uma “explosão das ocorrências do politicamente correto” na imprensa brasileira. Anteriormente, quase não se abordava o par de vocábulos e, quando era citado, remetia a uma estratégia considerada correta em uma ótica política, não sendo, pois, indissociável. Trazido às terras tupiniquins como uma “importação norte-americana”, o termo, na época, ganhou a manchete na Folha: “Politicamente correto chega ao Brasil”. O título citado foi atribuído à reportagem sobre a publicação de uma letra modificada de Atirei o pau no gato, alteração feita para que a música contivesse uma mensagem com menos violência aos animais. No começo, a expressão estava ligada desde à proteção dos bichinhos até a demandas de cunho ecológico. Assim, houve uma difusão e dispersão do tema, tratado como algo exótico, uma moda, um estilo de ser e de pertencer a uma tribo urbana. Por vezes, pitadas de ironia eram adicionadas a este caldo.
A expressão "politicamente correto" chega à imprensa brasileira como uma "importação norte-americana". | Fonte da imagem: nossomapa.blogspot.com.br.
1994: contextualização brasileira
A partir de 1994, o politicamente correto passou a ser incorporado à realidade nacional de forma contextualizada. Até o momento, o conceito portava o adjetivo “norte-americano” com frequência, um indicador da mera assimilação que preponderava na primeira fase. “Em 94, uma ONG de São Paulo, entrou com uma notificação na justiça contra uma cena de racismo da novela Pátria Minha, da Rede Globo”, relembra a pesquisadora. Sem uma maior penalidade, a Folha divulgou esse caso como “uma tentativa de censura politicamente correta”. Surge, então, a ideia de censura associada ao politicamente correto.
"Pátria Minha", novela da Rede Globo, teve um embaraço na ótica do politicamente correto. | Fonte da imagem: revistanaweb.blogspot.com.br.
2000: viés político
Com a virada do século, o debate passou a ser localizado em uma esfera política. “Já faz referências claras a iniciativas de movimentos e minorias sociais. Há uma alusão constante do politicamente correto como forma de censura, ou seja, o cerceamento de um direito democrático”, coloca Nara. Segundo a jornalista, a Folha de S. Paulo, que após abertura democrática construiu um marketing de “grande defensora da liberdade de expressão”, assumiu uma postura crítica frente ao politicamente correto, intensificada com o tempo. Surge uma tentativa de ressignificação do conceito, pois este tinha ganho uma carga pejorativa. Nessa época, o governo lançou a cartilha Politicamente Correto Direitos Humanos, a qual elencava palavras consideradas preconceituosas, porém foi tirada dias depois de circulação. Além disso, nessa terceira etapa floresce o “politicamente incorreto”, um “selo” assumido por humoristas e editoras, “desfazendo clichês do ponto de vista do opressor”. Historicamente, o politicamente correto tem um percurso que acompanha o amadurecimento e o aumento de visibilidade dos movimentos sociais no Brasil.
Hoje em dia, o politicamente correto está associado às lutas das minorias. | Fonte da imagem: cassufrn.blogspot.com.br.
Não há um consenso, enfim, acerca da utilização do termo politicamente correto. “É uma categoria em disputa entre os diversos agentes sociais”, salienta Nara. O sentido e o valor da expressão são cartas dispostas na mesa. Maneira de podar a liberdade de expressão? Importante analisar cada caso e não criar uma polarização, já que “o discurso, por si só, não tem caráter censório”.