ISSN 2359-5191

28/10/2015 - Ano: 48 - Edição Nº: 102 - Arte e Cultura - Escola de Comunicações e Artes
Estudo integra diferentes manifestações da cultura hip hop paulistana
Break, grafites, rap e DJs são enfocados a partir de um viés narrativo
Cultura hip hop: inclui break, grafites, rap e DJs. | Fonte da imagem: www.michionthemic.com.

Em declarações feitas à rádio BBC 6 Music, o produtor Eddie Kramer afirmou que Jimi Hendrix teria sido um “pioneiro do hip hop”. No contexto brasileiro, essa expressão cultural está presente tanto em provas quanto em atrações televisivas: no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2015, uma das questões da prova de Linguagens abordou a origem dos passos de dança do break; um dos atuais folhetins da Rede Globo tem como cenário a comunidade de Paraisópolis, solo fértil para o florescimento de sons, cadências e rimas que tratam de conteúdos sociais. E, por falar em terras paulistanas, é justamente a cultura hip hop da cidade de São Paulo que constitui o objeto de pesquisa de Marcos Antonio Zibordi. Além de um olhar sobre o discurso, o jornalista apresenta, em sua tese de doutorado, um tratamento transdisciplinar do tema, pois trabalha com break, grafites, rap e DJs.

Originário de uma situação não privilegiada economicamente, Zibordi aliou o lado pessoal com o desejo de descobrir como o assunto vinha sendo estudado na academia. Com a ajuda da internet, o pesquisador selecionou as produções acadêmicas, cujos temas giravam em torno do hip hop, da USP (Universidade de São Paulo), Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e Unesp (Universidade Estadual de São Paulo). Faz questão de ressaltar que, eventualmente, algum projeto, por não estar disponível online, tenha ficado de fora de seu recorte. Chegou, então, a um apanhado de 120 pesquisas, feitas de 1994 a 2014, colocadas no ambiente virtual, e percebeu que ocorria “uma mutilação”, por vezes involuntária: “Havia uma tendência muito clara de se estudar o rap; dentro do rap, os Racionais, que é importante; e, depois, um pouco sobre grafite e pichação, pouca coisa; nada específico sobre DJs ou dança”. Ao identificar esse panorama, o jornalista propôs elaborar uma “leitura integrada do hip hop”, destacando o fato de estar diante de uma manifestação que engloba um conjunto de expressões.

 

Narrativas culturais

Marcos Antonio Zibordi percebe a cultura hip hop como uma “narrativa das narrativas culturais”: observa o épico e o heroico no rap; o dramático na dança, performance na qual “o narrador é o próprio personagem”; um quê lírico-concretista nos grafites e pichações; uma natureza paródica nos DJs, já que esse gênero é uma mistura de dois elementos que, combinados criticamente, resultam em um terceiro item. Fora essa aplicação de teorias literárias, há um quinto ponto: “O conhecimento, a atitude, uma coisa inefável, um negócio imaterial. É o discurso do hip hop”. Ao manter esse prisma, o pesquisador coloca que o discurso em questão possui caráter simbólico, assim como o religioso, de extrema relevância para a sociedade. O hip hop é, pois, constituído de manifestações distintas, carregadas de histórias, nas quais construções artísticas e realidade caminham juntas, estampando denúncias sociais que precisam ser debatidas por todos.

 

Ótica literária

A perspectiva adotada no estudo verifica, narrativamente, as expressões do universo hip hop:

Break: Zibordi acredita que o break é a dança de rua mais executada em São Paulo e, por isso, foi escolhido para integrar a tese. O narrador é também personagem e ator dos movimentos executados, alternando o protagonismo com a plateia. Os passos são exibidos em disputas, o que acentua o traço dramático. A apresentação na roda possui três partes (ou atos, lembrando o teatro): o chegar naquele espaço, o momento no chão e a conclusão. Há, portanto, a demarcação de começo, meio e fim.

 

Alguns passos do estilo break. | Fonte da imagem: www.dancaderua.com.


Grafite e pichação: “Não formam uma narrativa no sentido clássico que é: personagens, dentro de um espaço, envolvidos numa trama que se resolve”, alerta o pesquisador. Compara-se com a poesia concretista, já que ambas as expressões são criadas no meio do caos e têm preocupações com tipologias, suportes e outros elementos extratextos.

 

Grafite próximo à Avenida Paulista. | Fonte da imagem:  sp.viajantebrasileiro.com.br.

 

Rap: em geral, um poema longo que retrata “o homem que vai para a guerra” (do embate polícia e ladrão à luta pela sobrevivência), comparado aos escritos épicos, com cadência militar, reta, construído com rimas AB, concatenando episódios.

 

 Rapper e MC são denominações atribuídas a quem faz rap. | Fonte da imagem: blogkeepcalmandsmile.blogspot.com.br.

 

DJ: definido pelo jornalista como um “parodista nato”, o qual utiliza aparelhos e procedimentos de recorte. As várias versões de Canção do Exílio exemplificam, no campo literário, a característica paródica mencionada.

 

Toca-discos, mixer e vinil: alguns dos elementos de um DJ. | Fonte da imagem: www.adventureeventos.eev.com.br.  

 

A capital do hip hop

A terra da garoa tem, hoje, mais um apelido nas costas: capital do hip hop, um “centro aglutinador e exportador”. Não é difícil encontrar um grafite colorindo o concreto na Pauliceia. De acordo com Zibordi, o break começou no centro da cidade. Os DJs agitam a noite. E o rap? “[O volume de] produção é inegável”, enfatiza o pesquisador. A grande quantidade de artistas e pessoas que frequentam shows de rap prova o fascínio causado por uma arte nascida na periferia.


Antropofagia e religião

Perguntado acerca da influência norte-americana na cultura hip hop tupiniquim, o pesquisador compara o tópico à discussão antropofágica cultural dos Modernistas de 1922: “quando chega aqui, deglute e fica de outro jeito”, sintetiza. Os meninos nacionais reconhem a realidade dos moradores menos abastados da pátria do Tio Sam. Desigualdade social não tem língua, não é? O uso de rolinhos na feitura de grafites (nos territórios gringos, a latinha é o carro chefe) constata a criatividade e a capacidade de adaptação dos jovens. Segundo Zibordi, esse misto “ficou mais com a cara daqui”, salpicado de aspectos semelhantes à narrativa religiosa. A aproximação é esboçada levando em conta as inúmeras religões e o sincretismo existente no quadro brasileiro, as citações explícitas de elementos religosos em raps e a adesão fervorosa dos integrantes desse movimento artístico. Para muitos, o hip hop é religião: uma fé nas denúncias sociais, um grupo de narrativas sobre a realidade das periferias, uma arte importante para o entendimento do Brasil.

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