ISSN 2359-5191

02/02/2016 - Ano: 49 - Edição Nº: 6 - Sociedade - Escola de Comunicações e Artes
Adotar não deve ser um ato de altruísmo
Livro-reportagem “Adotando uma família” aponta questionamentos necessários sobre a adoção de crianças e adolescentes através de cinco histórias reais
Adoção: sentimentos além do sangue. | Fonte da imagem: cmresende.rj.gov.br.

A atriz norte-americana Sandra Bullock anunciou à revista People, no início de dezembro, que adotou Laila, menininha de três anos e meio. “Minha família é misturada e diversa, maluca, amorosa e compreensiva. Isso é uma família”, disse Bullock, que já era mãe de Louis, também gerado em outro ventre. Angelina Jolie e Brad Pitt logo são lembrados quando o assunto é adoção infantil. E no Brasil, como anda esse tema? De acordo com o Cadastro Nacional de Adoção, 66,78% das crianças que esperam por um lar são negras ou pardas; 22,41% têm algum problema de saúde; 38,13% fazem parte de círculos de irmãos e 80,65% possuem entre nove e 17 anos. Além disso, a maioria delas é fruto da relação entre dependentes químicos. Temática delicada, certo? Ainda que carregue um ar frágil, a questão precisa ser discutida. Foi isso que Marina Salles Teixeira fez: em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), mergulhou nesse universo, embasada em dados e um punhado de conversas. A tarefa resultou no livro-reportagem Adotando uma família, no qual são apresentadas cinco histórias envolvendo personagens bem distintos e questionamentos semelhantes.

    “O primeiro contato que tive com adoção foi com dez anos mais ou menos. Tenho dois irmãos mais novos. Um deles levava um amiguinho em casa e esse menino era adotado”, rememora a jornalista. Gabriel, o coleguinha citado, tinha problemas com a mãe. Marina, pois, começou a refletir sobre as relações parentais com filhos que não seguem ao pé da letra o clichê “sangue do meu sangue”. Há cinco anos, ela se deparou com outra situação: a tia de seu namorado adotou Isabella. Ao acompanhar o crescimento do mais novo membro do clã, a inquietação voltou. Com um envolvimento emocional puxado a seu favor, a então estudante decidiu escrever sobre o mundo dos sem número de pequeninos que habitam filas, abrigos e fazem parte de estimativas.

 

66,78% das crianças que esperam por uma nova família são negras ou pardas. | Fonte da imagem: www.amargosanoticias.com.

 Pena uma ova!

Uma criança não pode ser adotada por pena e ponto final. Não se trata de uma atitude altruísta. Você, cria biológica de seus pais, agradece a eles, frequentemente, por ter sido gerado? Você disse hoje para a sua mãe: “Obrigada por ter me carregado durante nove meses”? Não? Pois é, filhos adotados também não beijarão os pés de quem os ofereceu um lar. “São crianças como qualquer outra e não vão te agradecer por ter sido adotados”, observa Marina. “Filho é filho. Você constrói essa relação afetiva ao longo do tempo”. Não adote almejando uma vaga no céu e, sim, porque sente que está pronto para amar, cuidar e criar um ser humano.

 

Mais amor e menos pena! | Fonte da imagem: guiarioclaro.com.br.

 Olá, abrigo!

Como ponto de partida, Marina buscou entender de que forma as crianças chegavam até um abrigo. Ao aterrissarem nessa guarida, os pequenos não são colocados, de maneira automática, no cadastro de adoção. Assistentes sociais, psicólogas e todo um aparato estão dispostos a, em um primeiro recurso, trabalharem a família biológica e construírem um processo de reinserção da criança no seu núcleo familiar original. A pobreza, por exemplo, não é um fator que limita instantaneamente. Se uma mãe não tem dinheiro para comprar comida para o seu filho e esse é o motivo pelo qual ela o está deixando, funcionários do local procuram por programas governamentais para que esse tópico seja aparado. A dificuldade se dá devido a uma doença? Uma medicação ultra venosa resolverá? Em caso afirmativo, o guri passa alguns dias no abrigo recebendo o remédio. “A adoção é a última tentativa”, salienta a jornalista. Em muitos casos, a cria não é, simplesmente, abandonada como rege o senso comum. Porém, na hipótese de os caminhos esgotarem e a progenitora manter o desejo de não ficar com a criança, vale lembrar: ela tem esse direito.

 

Muitas crianças chegam aos abrigos ainda bebês.  | Fonte da imagem: telegraph.co.uk.

Tchau, abrigo!

“Uma vez que entendi como as crianças chegavam ali, comecei a entender como saíam dali”, continua Marina. “Procurei uma juíza da Vara da Infância para me contar um pouco mais sobre o processo. Li muita coisa, mas gosto de sujar os sapatos e ir lá, conversar com a pessoa sobre o que ela sabe”. Ouvir experiências: essa ação norteou a feitura do trabalho. Sendo assim, a jornalista dialogou com a juíza Dora Martins, referência nesse campo, a qual trabalha no Fórum João Mendes, no Centro de São Paulo. A especialista afirmou que o direito infantil está na dianteira das preocupações. Os pais, por outro lado, estão na última posição. Importante enfatizar: não é a criança que deve se adequar à família interessada; a família que deve ser a mais ajustada para determinado jovem. Na sequência para uma adoção estão, entre outras etapas, a avaliação dos candidatos, visitas de psicólogas e um curso preparatório.

Maria Beatriz Sette, fundadora do Acolher, grupo de apoio a indivíduos que pensam em adotar, foi outra fonte para a pesquisa de Marina. “Lá, quem tem esse interesse em comum pode conversar, tirar dúvidas, ser instruído pelas assistentes sociais e psicólogas. É quase como um trabalho voluntário. Existem reuniões com quem já adotou, troca de experiências”, relata a jornalista sobre o trabalho feito pelo Acolher. O livro também apresenta esse propósito: ser mais uma ferramenta que auxilie decisões acerca da adoção. 

Ainda no entrelaço dos papos tecidos por Marina, há Isabel Penteado, representante do Instituto Fazendo História, ambiente no qual o passado das crianças adotadas é reconstruído. No Instituto, voluntários leem histórias para crianças e, com isso, fazem com que ela se abra e reconstitua o transcorrido. Um jeito de fazer um álbum de bebê para quem não teve esse mimo, uma remontagem da memória. A nova família não deve tentar apagar o que o filho já viveu. Ele tem uma história que merece respeito. Surge, pois, a primordialidade de criar uma nova significação para a trajetória do jovem e, não, apagar episódios. “Mamãe, qual é o nome da barriga onde morei?” O melhor modo de responder a essa pergunta é, de fato, sem mentiras. “Precisa saber contar e contar”, frisa a autora do TCC.  

 

Família. | Fonte da imagem: projetorecriar.org.br.

Família é... família

Os cinco casos abordados no livro tocam em ocorrências complicadas, como o garoto que se masturbava no colo da mãe adotiva ou o menino que tinha medo de ser devolvido para o abrigo. Uma mãe solteira, um pai solteiro, uma dupla que já tinha filhos biológicos, um casal homoafetivo, uma moça que reflete sobre a própria adoção 40 anos depois. Daniela, Angelina, Luiz Eduardo, Moisés, Maurício, Eduardo, Christina, Gabriel, Moacir, Roberto, Denis, Mauro, Adriano, Fabiana... Esses são alguns dos protagonistas (mães, pais e filhos) de Adotando uma família. Com o trabalho, Marina Salles Teixeira reafirmou uma convicção tinha: “A conclusão que cheguei que essas famílias são muito parecidas”. Biológica ou não, família é tudo isso, retomando a fala de Sandra Bullock.

 

Crianças diferentes, amores iguais. | Fonte da imagem: crianca.mppr.mp.br.


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