São Paulo (AUN - USP) - Estudiosos da literatura e literatos, ao longo dos tempos, têm constantemente se arriscado nos caminhos tortuosos das letras a estabelecer uma definição para a poesia. Aristóteles, há mais de dois milênios, já parecia havê-la sintetizado em sua obra A Poética Clássica, na qual a definia como a arte da imitação.
A análise foi muito aceita durante o Renascimento, mas à medida que passava o tempo e se ampliava o campo da teoria literária, cada vez mais autores se aventuraram na análise da poesia, e foi-se criando uma vasta gama de visões do fazer poético. Atualmente, tal é a diversidade, que o ilustre poeta argentino Jorge Luis Borges, já no fim de sua trajetória literária, chegou a afirmar ter apenas dúvidas sobre o "ofício do verso" para compartilhar com seus interlocutores.
É nesse contexto que o Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Letras da USP está publicando o livro O Poema: Leitores e Leituras. Consiste em oito ensaios, em que são analisados poetas e poemas diversos, sob diferentes óticas de aspectos pertinentes à teoria literária. O discurso emocional, a imagem, a sonoridade, são apenas algumas das temáticas abordadas pelo livro, no qual se pretende ilustrar justamente a pluralidade de fazeres e análises poéticos.
O livro surgiu a partir de um curso fornecido por docentes da faculdade a professores de literatura do ensino médio. Juntamente com ensaios desvinculados do curso e com textos de alunos, a maioria dos ensaios se fundamenta em palestras ministradas por docentes, em que os poemas são submetidos a diferentes leituras e releituras. "O objetivo é resgatar o leitor dentro do professor", afirma Andrea Hossne, uma das organizadoras do curso e do livro.
Os ensaios, aparentemente desconectados e independentes um do outro, conjugam-se e encontram uma unidade exatamente na heterogeneidade de leituras que a poesia nos possibilita. Nesse sentido, cada palestra proporcionou uma diferente aproximação com o poema, estabelecendo novos contatos com a literatura, de modo a "atentar o leitor para a multiplicidade da poesia e para a possibilidade de diversas leituras", ainda segundo Hossne. Dessa forma, Chico Buarque é lido sob a ótica de sua intertextualidade com Drummond, Brecht é analisado de acordo com o taoísmo, e os ensaios, pouco a pouco, vão localizando a obra no contexto da Teoria Literária e no universo que ela abre para a concepção de poesia.
O livro faz parte da coleção Estudos Literários, produzida pelo departamento, que tem o intuito de expandir o conhecimento da faculdade para professores e demais interessados na teoria literária e no estudo da literatura em geral. Foram produzidos 400 livros para distribuição entre alunos do curso, bibliotecas de escolas públicas e mestrandos interessados, mas outros 600 exemplares estão à venda.