São Paulo (AUN - USP) - Quando, no Brasil, os conflitos sociais no campo estão na ordem do dia e o neo-liberalismo emerge com toda a força, um livro que estabelece a relação entre as revoltas camponesas e as reformas liberais não poderia passar despercebido. O livro Reforma liberal e Lutas camponesas na América Latina, das historiadoras Gabriela Pellegrino Soares e Sylvia Colombo, lançado recentemente pela editora Humanitas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, detém-se a falar de México e Peru no final do século XIX. Mas ao contrário do que se poderia supor, a análise nada tem de pontual e fragmentária.
O recorte preciso do objeto que há na obra serve a seu melhor estudo e é a própria pesquisadora quem ressalta sua preocupação em estabelecer um diálogo constante entre o particular e o geral. A comparação entre a realidade brasileira e a desse países latino-americanos, inevitável no decorrer do livro, não está explícita, ficando a cargo do leitor. “Acredito que as pessoas, conhecendo minimamente a realidade brasileira façam isso automaticamente”.
Eximindo-se do perigo que seria uma generalização da questão da terra na América Latina e sem cair na circunscrição excessiva dos problemas, prática infelizmente comum no meio acadêmico, Reforma Liberal na apresentação desses dois casos já em si relevantes, serve a toda uma sistemática da questão camponesa no continente. Já se firmando como importante contribuição à escassa bibliografia sobre América Latina no Brasil. A obra, composta de dois ensaios, parte da tradição agrária dos indígenas desde o período pré-colonial. A enfâse está na visão da terra não apenas como base de sustentação econômica mas de todo um universo simbólico e cultural, o que faz da expropriação das propriedades camponesas uma condenação não só a miséria e marginalização profundas como também uma violação de seus costumes e de suas culturas.
A força do processo de modernização econômica chocou-se inevitavelmente com a cultura da propriedade comunal. Ao mostrar como a Revolução Liberal desestruturou a maneira tradicional de organização social indígena, o livro estabelece relação direta entre a intensificação da modernização e as pequenas revoltas camponesas, preocupando-se com a conexão entre o mundo da política e das relações sociais. Expõe como há formas sutis de resistência que fogem a padronizações, diferenças entre grupos de excluídos, cada um com sua maneira específica de lidar com seus problemas e de protestar. “A forma de manifestação válida é aquela que é válida para aquele povo. Teríamos um Brasil em chamas se esse fosse o resultado lógico da exclusão social” afirma Gabriela. Mostrando ainda que o historiador não deve se prender às suas convicções e se fechar a outras formas de expressão. “Se um camponês mexicano relacionava seu descontentamento à religiosidade, organizando-se em movimentos messiânicos, sua luta não é nula nem vã, mas só diferente daquelas que concebemos como as mais eficazes”.
No momento em que as populações estão aí lutando, resistindo ao neo-liberalismo, em Chiapas no México, com o MST no Brasil, é cada vez mais preocupante essa segregação entre América Hispânica e Portuguesa. “Os conflitos contemporâneos podem ser melhor entendidos dentro de uma trajetória histórica”. Mesmo com tantas diferenças há raízes comuns para a questão da terra e a comparação com a América Latina só tem a esclarecer sobre o Brasil.